CARECA: ALEGRIA, TÉCNICA E PRECISÃO CIRÚRGICA NA ÁREA 

Antônio de Oliveira era um centroavante goleador no interior paulista quando nasceu seu filho, Antônio de Oliveira Filho, em 05/10/60. Antônio, o pai, era um cabeceador dos bons, prometia, a família vivia do sonho de ver Antônio consagrado, no Santos de Pelé, no Palmeiras de Djalma Santos, no Corinthians de tanta torcida, no Flamengo, em algum time que brilhasse no futebol brasileiro. O São Paulo FC, na época em que o Antônio fazia seus gols em Araraquara, época em que seu filho nasceu, era apenas um São Paulo que participava dos campeonatos olimpicamente, o São Paulo queria construir um estádio para ser maior do que os maiores.

Antônio de Oliveira deu o seu nome ao filho porque a sua paixão era o futebol, se ele não vencesse o filho venceria; isso ele sentenciou à mulher e aos seus próprios pais, a mulher e os pais eram as pessoas que mais acreditavam em seus sonhos.

Vitimado por contusões fatalísticas, Antônio de Oliveira foi obrigado a abandonar o futebol e seu sonho dourado de ser craque se esvaiu. Deixo por conta da sensibilidade dos meus leitores e iguais a imaginação, pois não sei descrever com palavras esse momento trágico da família dos Oliveira, ao constatar que para Antônio, seu arrimo, o sonho de ser craque havia terminado. Há certas passagens na vida que quem escreve não pode definir, quem lê é que faz a figuração do singelo momento, em sua simplicidade indescritível.

Antônio de Oliveira quase desistiu de tudo, foi um drama, sua família sofreu o pão que o diabo amassou enquanto o menino, o filho, nascido no momento da tragédia, crescia.

Mas, aquele menino era especial.

Futebol? Futebol, que nada! Antônio de Oliveira Filho era uma dádiva da alegria! O menino, desde pequenininho, gostava de fazer a família rir! O seu ídolo era o “Carequinha”, o palhaço do circo e da TV!

“Carequinha” era o rival do antológico palhaço “Arrelia”, que foi o maior dos palhaços brasileiros; “Carequinha” era engraçadíssimo, impagável, e o menino tinha um sonho, a mãe e o pai estavam infelizes e o menino queria ser igualzinho ao “Carequinha”, o rival do “Arrelia”, ele iria fazer a família feliz de novo!

O patriarca Oliveira, sofrido, ele, seu Oliveira, o craque que tinha tudo para ser e não tinha sido, estranhava. Que destino era aquele? Não! Depois do sofrimento do pai, o filho que destino teria, ao procurar aqueles caminhos?

“Carequinha” ia fazendo as suas apresentações domésticas enquanto o pai, o Sr Oliveira, o craque frustrado, ia apresentando a bola a ele. Seu Oliveira tinha uma ligação com a bola que era eterna.

“Carequinha”, por influência do pai, foi se familiarizando com a  pelota. Entre risos e trejeitos para fazer rir, “Carequinha” e a bola foram tomando intimidades, até que se apaixonaram perdidamente, um pelo outro.

“Carequinha” percebeu que com a bola nos pés poderia ser o palhaço que idealizara, poderia ser o “Carequinha” dos circos e da TV, sim, poderia realizar o seu sonho; fazer a família de novo feliz!

Então o menino resolveu transformar a bola em meio para que pudesse trazer luz à família Oliveira, uma família enamorada pelo futebol. Se o pai não tivera sorte, ele, o “Carequinha”, com o seu senso de humor, com a sua alegria, iria transformar os campos em um picadeiro!

Foi rápida a transformação de “Carequinha” a “Careca”. Até o apelido do rapaz mudou num instante, como o estalar de um relâmpago.

O guri engraçado passou a infortunar as defesas dos adversários dos campinhos de várzea de Araraquara, aquele palhaço fazia rir a quem assistia aos jogos de que participava, fazia gols de todo jeito e os comemorava fazendo graça como seu guru, Carequinha!

Muitos são testemunhas, estão vivos! O “Carequinha”, o filho do Toninho, como era chamado o seu Oliveira, fez gols de todos os jeitos na várzea de Araraquara para júbilo do pai. E os comemorou com tanta alegria que um dia o Guarani, da vizinha Campinas, veio procurá-lo. Quem era o menino que fazia palhaçadas na área?

“Careca”, era assim que já passara a ser chamado, (os diminutivos no mais das vezes são apanágios dos menores) consultou o pai, e o pai, cheio de glória, deu o “sim”, consentindo que o craque fosse para o Bugre.

Então começou uma carreira para a eternidade.

No Guarani, Careca fez chover uma chuva engraçadíssima!

Rapidamente, dos juniores passou aos profissionais e, num piscar de olhos, toda Campinas se enamorou dele.

Careca alegremente infernizava as defesas adversárias, Careca era hábil, rápido, simples, eficiente, fatal. E bem humorado!

O jeito de jogar bola daquele menino chamava a atenção até de quem não gostasse de futebol. Quando a bola estava com Careca recebia um tratamento de luxo, em dois toques, no máximo, ele dava a ela o destino do sucesso, a bola gostava dele, que bola não gosta de ser tratada assim?

Careca, nas proximidades da área, dava um drible curto, às vezes de costas virava como um raio e fazia o gol. Careca servia o companheiro mais próximo como se estivesse fazendo uma caridade sem espalhafatos, Careca, às vezes, com sua agilidade, vinha para a pequena área e saltava mais do que os goleiros e cabeceava para as redes, como o seu pai, o Seu Oliveira, o forte do Seu Oliveira, já dissemos, era a impulsão para cabecear.

O Guarani teve Babá e Nelsinho, teve Américo e Carlinhos, mas o Guarani nunca tinha tido alguém como Careca, Careca era um extra-série!

Aquele menino, o filho do Toninho, o alegre fã do palhaço Carequinha, rapidamente arrebatou o Brasil.

No final dos anos 70, Careca era voz corrente entre aqueles que gostavam de futebol. Ninguém duvidava de que aquele menino era um predestinado.

Eu vi, no Maracanã de 100.000 faces e de 200.000 olhos, o Guarani vencer o Vasco nas semifinais de 1978. Rugia como trovão o clamor do vozerio vascaíno mas Careca silenciou o Maracanã com a sua arte, com a sua alegria e com a sua técnica. Careca desmantelou o Vasco, com a sua simplicidade, com a sua precisão. Vencidos os cariocas, o Guarani de Careca venceu o Palmeiras no Morumbi e no Brinco de Ouro, sempre com gols de Careca, com a mágica do menino, tudo muito fácil, assim como teclar no twitter.

O São Paulo havia brigado com seu maior artilheiro, acabava-se o ciclo de Serginho, herói, anjo e demônio da história do clube paulistano. O São Paulo vendera o passe de Serginho ao Santos e a torcida do Mais Querido estava em pé de guerra.

Quem substituiria Serginho no São Paulo?

O São Paulo trouxe Careca, contratando-o do Guarani por um valor que era uma fábula! Só Careca poderia preencher aquela lacuna, só aquele craque nascente, aquele craque anunciado, aquele menino com ares de gênio, aquele menino alegre que o Brasil já amava poderia satisfazer a torcida mais exigente do planeta: o São Paulo trouxe Careca!

Então, para felicidade do Seu Oliveira que via o filho realizar seus sonhos pessoais, o prodígio veio para o São Paulo e deu o passo decisivo para entrar para a história.

Careca chegou deslumbrado. O filho do Seu Oliveira não queria mais ser palhaço, agora era galã! Namorou as meninas da Paulicéia, a noite era curta diante dos desejos do astro, Careca deslumbrou-se no primeiro momento em que se viu vestido com a sacrossanta e inigualável camisa das três cores. Eu vi a estréia dele no São Paulo. Foi contra o América, de Natal, pelo Campeonato Brasileiro.

Já tínhamos Renato, que com ele formara dupla incomparável no próprio Guarani, esperava-se que se transformassem, ele e Renato, em Pelé e Coutinho no Bem Amado. Careca fez um gol, um golaço, naquela vitória por 4 x 1, no Morumbi. Recebeu uma bola no lado esquerdo da área do adversário, perto da meia lua. Estava de costas para o gol. Com seu jeito espontâneo deu um drible no marcador para dentro, voltou e, de virada, fez o gol com um chute certeiro.

Parecia que Serginho estava esquecido.

Mas não foi assim.

Careca, não se sabe por que razão, foi murchando. Começou a sentir contusões. Uns dizem que era artrite, outros dizem que era noitite, ninguém sabe.  Mestre Mário Travagline afiança que era mesmo  artrite. O certo é que Careca teve um primeiro momento de desilusão. Mas o que era um momento de desilusão para um gênio chamado Careca?

Curado das artrites ou das noitites o menino entrou em forma e tornou-se um dos maiores jogadores da história do São Paulo FC.

Ah, eu vi Careca jogar, e como me orgulho disso!

Foram 4 anos vestindo a camisa do São Paulo. 4 anos que valeram pela eternidade!

Meu Deus, como jogou o Careca no São Paulo! Conheço gente que acha que Careca foi o maior atacante que tivemos!

Vi gols de Careca de todos os tipos. Careca era rápido, ágil, habilidoso, entrava e saía da área como quem ia até ali e voltava, Careca surpreendia, emboscava, era certeiro por baixo e no alto. Careca não perdia gols, nunca! Pelo contrário, Careca dava grife aos gols!

Sim. Porque Careca tinha um jeito especial de marcar gols. Careca tinha um jeito todo próprio, tinha uma ginga, tinha um balanço, uma cadência circense que inebriava a própria bola!

Quando o São Paulo foi campeão paulista em 1985, Careca fez chover e parar de chover.  O Mais Querido revelara Muller, Silas, Sidnei e outros. Mas o que Careca jogou naquele ano foi algo de se escrever para a eternidade. No Brasileiro de 1986, o gol que Careca fez no último instante da prorrogação, contra o Guarani, que o havia revelado, foi um gol impróprio para cardíacos, foi o gol que revelou cardíacos, foi o gol para sempre, o gol que os são-paulinos vivos e mortos abençoarão pelo resto dos tempos! Não preciso descrever aquele sem-pulo de pé esquerdo, sem ângulo, sem sentido, sem amor pelos adversários que devem ter inveja, que morreram e morrerão de inveja, graças a Deus!

Careca, o menino que queria ser palhaço para alegrar o mundo, deixou o mundo todo bobo com o seu futebol.

Careca era um centroavante preciso. Em pequeno espaço fazia o que ninguém esperava. Um segundo de vacilo da defesa e pronto, bola no barbante!

Aquela arrancada do São Paulo para ser Campeão Brasileiro em 1986 teve a marca do gênio de Careca. Ninguém se esquece dos gols que ele fez no campeonato inteiro, ninguém se esquece dos gols que ele fez na reta final, contra o Fluminense, contra o América (duas vezes) e nas finais, contra o Guarani que o revelou. Nenhum são-paulino jamais há de se esquecer das comemorações de Careca naqueles gols, comemorações cheias de teatralidade, cheirando a picadeiro de circo, do jeito que lhe convinha, para matar as saudades da infância.

Em 1982, ainda no Guarani, e sem mídia para ajudar, Careca deveria ter sido o centroavante da Seleção Brasileira na Copa do Mundo; uma contusão o afastou do certame, talvez com ele o resultado tivesse sido outro.

Em 1986 e em 1990 ele esteve nas Copas do Mundo, envergando a camisa do Brasil. Claro, Careca era um jogador de Copas do Mundo!

Em 1987, quando Careca estava simplesmente iluminado no São Paulo FC, quando a torcida o idolatrava, o clube o vendeu para o Nápoli e os são-paulinos choraram, houve um mar de lágrimas no Morumbi. Não havia como segurá-lo, o mundo já se apaixonara pelo seu futebol.

O menino foi se juntar a Diego Maradona; com Maradona e Careca o Nápoli ganhou o título italiano depois de 40 anos, ambos, Maradona e Careca, até hoje são cultuados como deuses na Itália.

Careca, o precioso artilheiro, jamais voltou a envergar a camisa do São Paulo FC. No fim da carreira jogou no Santos FC, jogou também no Japão. Os quatro anos que esteve no Morumbi durarão quatrocentos séculos, virarão lenda na memória dos tricolores, as façanhas de Careca continuarão a ser contadas, de pai para filho, até o fim dos tempos.

Careca é imortal, não morrerá, se ele morrer duvidem.

Lembro-me de uma noite sagrada no Morumbi. Jogavam São Paulo e Ferroviária, pelo Campeonato Paulista, o Campeonato Paulista ainda era místico.

O São Paulo venceu por 4 x 0, Careca fez dois gols de placa no Morumbi. Não pude dormir, tal era a minha excitação com aqueles prodígios, logo eu, que já havia visto Careca fazer coisas inacreditáveis com a sacrossanta camisa tricolor. No dia seguinte, quase insone, fui a uma audiência no fórum central da capital. O magistrado era são-paulino. Findos os trabalhos, nós dois, eu e ele, absolutamente apaixonados pelas obras de arte de Careca na noite anterior, quisemos discutir sobre qual dos dois gols teria sido mais belo, o de bicicleta ou o outro, em que Careca driblara a defesa inteira do adversário. O magistrado divergia de mim, queria por que queria consagrar o gol de bicicleta como o mais bonito. Eu confesso que estava indeciso.

Então invoquei Salomão, o mais justo dos magistrados, o justo dos justos: nenhum dos dois gols poderia ser considerado mais bonito do que o outro, eis que em cada um havia uma beleza singular e inexcedível. Eu não podia optar por um ou outro e os considerava, a ambos, duas obras-primas. Sua Excelência meditou, meditou, e houve por bem conceder. Ponderando judiciosa e equânimemente observou que Careca se excedera em genialidade duas vezes; o gol de bicicleta era melhor do que o gol em que ele driblara a defesa inteira do adversário, mas o gol em que Careca driblara toda a defesa do adversário também houvera sido mais bonito do que o gol de bicicleta. Em suma, não havia como definir, ambos os gols eram antológicos e inesquecíveis, havia empate técnico e acabou-se a discussão. E havia mais: Careca comemorara os dois gols com uma performance circence! Eram gols de Careca, gols com a marca de um dos maiores craques que eu vi jogar.

Careca foi a alegria, a técnica e a precisão cirúrgica na boca do gol.

Mas hoje não há mais Carecas.Talvez um circo e seus personagens tenham inspirado esse deus da bola. Mas hoje quase não há mais nem circos, não há mais a inspiração dos palhaços, rareiam os craques, nestes dias em que eu junto estas palavras não se discute mais sobre a beleza ou sobre a alegria dos gols tricolores.

Tempos modernos.

Fazer o que, iguais? Evocar nossa mística história e de joelhos implorar por melhores e mais alegres tempos!

E, claro, lembrar com saudade dos nossos astros eternos.

Ave, Careca, Ave!

Dr Catta-Preta é advogado e são paulino.

No twitter @catta_preta

e-mail: antoniocattapreta.com.br