“Mestre Ziza”

Vou falar de coisa séria. Vou falar de craque. Craque, com C maiúsculo.

Já cantei Sastre, já elevei Pedro Rocha, já recantei Gerson.

Agora, uma outra personalidade mística da história do Bem Amado se levanta.

Falarei de Zizinho.

Tomás Soares da Silva tinha tudo para não ser ninguém. Quando ele nasceu, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, aos 14/09/21, o futebol no Brasil era incipiente.

“Tomászinho”, “Tomászizinho”, “Zizinho”, como era chamado pelo pai, adorava jogar bola. Zizinho parece que já nasceu jogando bola. Filho de uma família paupérrima, aquele menino deve ter sido enviado por Deus para mudar a sorte da família Soares.

O garoto franzino era esperto, inteligente, rápido e não gostava de estudar porque estava, desde o berço, enfeitiçado pela bola. Os pais o endereçavam para a escola mas ele assombrava a vizinhança com a habilidade que tinha com a pelota nos pés.

Zizinho, o pequeno Tomás, não tardou a ser chamado por um clube profissional para exibir suas virtudes. Com menos de dezesseis anos já estava no Flamengo, no Flamengo de Leônidas, o maior craque de que se tinha notícia.
Quando o “Diamante Negro” foi o artilheiro da Copa de 38, na França, Zizinho já esboçava, em solo pátrio, uma carreira que poderia equiparar-se à do grande herói em quem se espelhava.

Dizia-se, no romântico Rio de Janeiro, que Zizinho seria um fenômeno, Zizinho seria o sucessor de Leônidas.
Depois da Copa de 38, Leônidas brigou com o Flamengo, o São Paulo trouxe Leônidas para São Paulo, já sabemos o que ocorreu com o “Diamante” na vida do Tricolor Paulista.

Então, no Rio de Janeiro, Zizinho, aquele menino, substituiu Leônidas no Flamengo e passou a ser a figura mais admirada do futebol carioca.

Lembram-se de Zico, meus iguais?

Zizinho era o Zico dos anos 40 no Flamengo. Zizinho era o dono do Mengo. Quando Leônidas, o “Homem Borracha” veio para São Paulo, o Rio de Janeiro o substituiu por Zizinho e Zizinho passou a ser o “Rei do Rio”.

Não quero me estender. Não estou escrevendo um compêndio.

Zizinho, depois de dar show no Flamengo, depois de se transformar no maior craque da Copa de 1950, a exemplo de Leônidas, brigou com a direção do rubro-negro.

Zizinho, irado, foi jogar no Bangu, o Bangu era um time respeitado na época.

Zizinho disse, naquela oportunidade, que o futebol, para ele, se transformara em mera brincadeira.
Claro, ele continuou a encantar o mundo. Mas estabeleceu-se em Bangu, fixou negócios ali, disse que dali jamais sairia.

O São Paulo FC estava vivendo uma época opaca em 1957. Ganhara um título em 1953, com craques já no ocaso da carreira. Em 1952, Monsenhor Bastos abençoara o terreno em que o São Paulo construiria o Morumbi, seu passaporte para a independência, e então, ganhar títulos havia ficado para segundo plano.

O Tricolor montou um time em 1957 que era admirável. O São Paulo de 57 foi o primeiro São Paulo que me fascinou. Com pouco dinheiro a diretoria reuniu um elenco que faria frente a Palmeiras, Corinthians e Santos, sim, Santos, onde despontava um fenômeno chamado Pelé.

Poy, De Sordi e Mauro, Dino, Victor e Riberto. Maurinho, Amauri, Gino , Celso (ou outro) e Canhoteiro. Com esse time, Bella Guttmann, um húngaro e nossa grande novidade como técnico, esperava vencer as dificuldades e devolver o São Paulo para o seu trajeto de glórias dos anos 40.

O São Paulo foi razoável no primeiro turno. Mas não animava a ponto de que se apostasse nele como campeão.
Jogava-se no 4/2/4, o futebol era outro. O São Paulo precisava de um meia-armador, Dino Sani fora recuado para volante, alguém havia de municiar aquele rápido ataque que tinha pontas maravilhosos, de um lado o velocíssimo Maurinho, de outro Canhoteiro, o gênio, o mago.

Tínhamos os exemplos históricos e intuitivos de Sastre a Remo, queríamos outro meia que fosse referência. Ninguém se esquecia de Leônidas, que viera do Rio depois de romper com o Flamengo.
Então alguém se lembrou do maior dos meias daquela época: Zizinho.

Zizinho tinha uma vida toda voltada para o Rio de Janeiro. Acho que Zizinho nunca tinha visto São Paulo de perto, ele era um carioca da gema. Por vingança, jogando pelo Bangu, humilhara o Flamengo; Pelé, no início da carreira já declarara que, para ele, o maior jogador do mundo era Zizinho. E o São Paulo resolveu que queria Zizinho, queria porque queria!

Vicente Feola foi um lume na história do São Paulo FC. Feola, na condição de técnico, prestou serviços ao São Paulo por trinta anos, em 1957 ele fora substituído por Bella Guttmann, o húngaro mágico.

Mas Feola permanecera no São Paulo, Feola era técnico exclusivo do São Paulo FC, ele só treinou time diverso quando dirigiu a Seleção Brasileira e foi Campeão do Mundo.

O São Paulo escalou Vicente Feola para ir ao Rio de Janeiro e convencer Zizinho a vestir a camisa tricolor. Assim foi feito.

O bonachão Feola foi conversar com aquele deus da bola e o convenceu, na base da brandura, a trocar as doçuras das praias cariocas pela força e pelo enigma do gigante de ferro e aço da cidade paulistana.

Zizinho desembarcou na paulicéia repetindo a epopéia de Leônidas.

Os adversários riram, gargalharam. Zizinho tinha 37 anos.
Bella Guttmann, doutro lado, endoideceu. Deu a 10 a Zizinho que era o maior jogador que ele tinha visto e armou o São Paulo para o segundo turno do Campeonato Paulista.

Todos sabem que o Campeonato Paulista naquela época era o que havia, era demais!

Ah, meus iguais, o que fez Zizinho com a camisa do Bem Amado é coisa para romance!

Zizinho estreou contra o Palmeiras, em um Choque-Rei, no Pacaembu, aos 10/11/57, e deu um show digno de placa.
O São Paulo venceu por 4×2 e, fora o espetáculo pessoal que ele deu, deixando loucos os adversários, nos quatro gols, astro inigualável, ele deixou Amauri e Gino, autores dos tentos, (cada um fez dois) na cara do gol.

O São Paulo ousou fazer algo que o futebol não vira antes. O São Paulo FC fez 28 gols nos cinco primeiros jogos em que Zizinho atuou com sua sagrada camisa 10, era um espetáculo inédito a cada jogo, sendo inesquecível notar que aquele time de 1957 deu um baile tão absurdo no Santos de Pelé, em plena Vila Belmiro, que o subjugou por 6×2! Depois desse jogo, Pelé repetiu para todo o Brasil que seu ídolo era Zizinho!

O São Paulo de Zizinho fez 4 no Palmeiras, 7 no XV de Piracicaba, 6 no Santos, 6 na Ponte Preta e 5 de novo no pobre XV piracicabano…

Zizinho, assim como acontecera com Leônidas, também apaixonou-se por São Paulo, e pelo São Paulo FC.
O time de 1957, comandado por Bella Guttmann fora do campo e por Zizinho dentro das quatro linhas, passou a jogar por música.

Os atrevimentos daquela orquestra que era o São Paulo de 1957 levavam ao delírio. O entendimento do meio-campo e do ataque tricolor era perfeito. Já viram a sintonia matemática de duas pálpebras que se abrem e fecham? Era assim que funcionava o meio-campo e o ataque tricolor sob o comando de Zizinho!

Zizinho, assim como havia feito Leônidas na década de 40, repito, tomou conta do São Paulo e de São Paulo no final da década de 50. A capital paulista se rendeu aos encantos de Zizinho. Com seu sotaque carioca, ele engolfava as entrevistas, ditava regras, fazia moda.

Zizinho mandou e desmandou desde que aportou em terras bandeirantes, apesar dos pesares dos adversários.
Zizinho, tendo arrebatado o povo paulista em cada jogo que jogou naqueles tempos também arrebentou na final do Campeonato Paulista de 1957, o campeonato de 57 foi o êxtase de Zizinho. São Paulo e Corinthians decidiriam o título. O Pacaembu era pequeno para o jogo, naquele domingo, 29/12/57.

Esse jogo é um dos duelos mais impressionantes da história do futebol paulista. O Corinthians tinha um grande time, sua torcida era maioria no estádio.

O primeiro tempo foi de estudos. Nada de gols. O Corinthians colocou um homem para deter os passes preciosos de Zizinho. Veio o segundo tempo. A torcida corintiana empurrou o time para cima do São Paulo. Então, Zizinho, esquecido, lançou Amauri e Amauri fez 1×0. O Corinthians deu a saída e atirou-se à frente. Zizinho recuperou uma bola dos desesperados e lançou Canhoteiro, o mago estava livre e fez 2×0. Era um jogo de matar.

Dada a saída, o Corinthians, impetuoso, arrumou um gol de voleio de Rafael, seu meia, e o duelo pegou fogo!
Em quatro minutos tudo ocorrera!

O Corinthians jurou ir à frente, queria empatar, parecia que ia empatar. Foi quando, aos 35 minutos do segundo tempo da batalha, Zizinho, armando serenamente um contra-ataque, dominou a bola, sua grande amante, e disse a ela coisas que só os deuses e os extasiados entendem. Então a endereçou, milimetricamente, aos pés de Maurinho, nosso ponta-direita.

O Corinthians e sua torcida estavam loucos, todo o time corintiano estava no ataque. Foi assim que Maurinho, recebendo aquele passe de mel de Zizinho saiu de seu campo intermediário, em alta velocidade e conduziu a deusa branca como um padrinho de casamento levando-a até a cidadela corintiana, onde Gylmar, o grande goleiro Gylmar dos Santos Neves, veio enfrentá-lo. Maurinho, conta a lenda, de longe gritou: em que canto você quer? E fez o gol dos gols, o gol da eternidade, o gol do maior dos “Majestosos”, decretando São Paulo 3×1 Corinthians!

Os corintianos atiraram garrafas ao campo. Não se conformavam. Zizinho os havia destruído, com sua técnica, com sua perspicácia! Três vezes, naquele embate, Zizinho tivera proximidade com a bola, nas três vezes a endereçara para a glória.

Zizinho ganhou, em São Paulo, dado pela imprensa e pela torcida, o apelido de “Mestre”.

Ele era mesmo um Mestre. “Mestre Ziza”, como o chamava a torcida são-paulina. Matreiro, habilidoso, driblava, lançava, ia à frente, voltava, segurava o time, soltava o time, a bola não resistia aos seus encantos. Os adversários o odiavam mas não podiam negar o seu talento, nunca negaram, pelo contrário, se há um craque são-paulino reconhecido pelos rivais, é Zizinho.

Terminado o campeonato de 1957, Zizinho foi embora. Jogou mais alguns jogos mas voltou para a “Cidade Maravilhosa”. Os Tricolores choraram, os demais disseram amém e deram Graças a Deus!

Zizinho deixou em São Paulo e no São Paulo FC, uma imagem impecável.

Nosso personagem faleceu em 2002. Ainda me recordo de uma última entrevista dele, não me lembro em que canal de televisão. Ele, já quase no dia em que o destino o chamaria para se eternizar, respondeu a várias perguntas, sempre com uma linda flâmula do São Paulo FC atrás do cenário, em uma parede de sua casa, como se o São Paulo FC fosse a sua alma.

Nunca um jogador simbolizou um clube tão expressivamente tendo jogado nele tão pouco tempo. O São Paulo FC e a sua exuberante torcida jamais se esquecerão do maravilhoso Zizinho. Jamais!

Ave, Zizinho, ave, Mestre ZIza!

Boas vibrações, meus iguais.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.

antoniocattapreta@yahoo.com.br
catta_preta on twitter

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