Antônio Sastre

DON ANTÔNIO SASTRE

O futebol teve meias. Foi no tempo da minha infância, da minha juventude. Meu pai viu os meias, meus avós viram, a geração de hoje não sabe da existência dos meias. Meias armadores e meias avançados.

Os meias armadores pensavam o jogo, eram os intelectuais do time. Os meias avançados se chamavam pontas de lança, vinham de trás, chegavam de trás, para atordoar as defesas. Os meias, armadores ou pontas de lança, eram os maiorais, de qualquer time.

Pense bem, igual: Didi foi meia, Ademir da Guia foi meia, Gérson foi meia, Zizinho foi meia, Pedro Rocha foi meia, Leivinha foi meia, Pelé foi meia.

Para ser meia era preciso ser craque. Um time sem grandes meias estava morto.
Hoje não temos mais meias, hoje tudo no futebol é correria, tudo é meia, meia boca.

Quando no dia 12/05/44 o São Paulo conseguiu trazer para São Paulo o jogador Antônio Sastre, os adversários ficaram atordoados. Sastre era o maior meia avançado do mundo, era o capitão da seleção argentina, não havia televisão direta, Sastre era uma uma lenda, tudo era noticiado pelo rádio, o que se sabia de Antônio Sastre era que ele era um fenômeno.

O São Paulo havia trazido Leônidas, o “diamante negro”, dois anos antes, Leônidas viera desacreditado e fizera seus detratores engolirem as críticas, já tínhamos Remo, armador vindo do Santos, tínhamos Bauer, tínhamos Ruy, Noronha era nosso, tínhamos um time quase completo, só faltava um meia avançado para que tomássemos conta de tudo, iríamos mostrar ao Brasil que o São Paulo era o maior. Havíamos ganho nosso primeiro título em 43, tudo era entusiasmo, o novo São Paulo empolgava.

Mas, torciam contra nós. Corintianos e palmeirenses desdenhavam a nossa aparição triunfal. A rivalidade surpreendente deixou o presidente são-paulino Décio Pedroso louco. Contratar Sastre? Sim, contratar Sastre!

Imaginem, iguais, já tínhamos o que tínhamos depois das loucuras de 42, já tínhamos o “diamante” e, de repente, teríamos também Sastre,“ el maestro”, o maior craque da América?

Um periodista argentino, de nome Carlito de La Braga, estando em São Paulo, em veraneio, cochichou a Décio Pedroso, o presidente visionário são-paulino, que Sastre admirava o Brasil e o futebol brasileiro, que Sastre cairia como uma luva naquele esquadrão que se desenhava. Décio, o sonhador, perdeu o juízo. Ter Sastre ao lado de Leônidas era como ter Buda ao lado de Cristo!

Então tudo foi feito, pontificou a lábia de Décio, o embaixador brasileiro na Argentina era são-paulino, Guimarães Bastos (esse era o nome do embaixador) interveio, ajudou; e o Independiente, a peso de ouro, liberou seu astro, o “maestro” veio. A cidade de São Paulo parou, de novo. Já havia parado com a chegada de Leônidas. O São Paulo revolucionava o mundo do futebol.

Sastre tinha 31 anos. Para os adversários, a idade de Sastre era o mote para que se dissesse que ele não daria certo. Os adversários inventavam desculpas, Sastre era um fantasma, eles estavam tremendo.

15/03/43: Sastre assinou seu contrato com o tricolor. O campeonato paulista estava prestes a começar.
Sastre estreou nas Laranjeiras, contra o fluminense, em um amistoso, havia chegado de madrugada, o São Paulo perdeu, 3×1.

No domingo seguinte começava o Campeonato Paulista e logo com um “Majestoso”!
Sastre, absolutamente desambientado, jogou ao lado de Leônidas, mas o São Paulo perdeu por 2×1. A imprensa, que não nos respeitava, proclamou, com letras garrafais: deSastre!

Os contrários arrumaram um jeito de nos humilhar. Aquele “velho” de 31 anos era um deSastre! Nosso técnico era Conrado Ross. Conrado teve calma, apresentou a Sastre a cidade, fê-lo ver o que era o São Paulo FC e depois o escalou de novo, uma vez mais ao lado de Leônidas.

Então, no Pacaembu, o tricolor enfrentou o Santos: 6×1! Depois vieram os outros, o Fluminense, em novo amistoso, levou 3×0, a Portuguesa Santista tomou 8×1, o Vasco, com seu “expresso”, levou 3×1. Nunca mais ninguém parou o “maestro” Sastre.

Sastre, para a língua espanhola, significa alfaiate. Sastre foi o alfaiate da triste roupagem do destino dos nossos adversários durante o tempo em que esteve no São Paulo. Quando o São Paulo venceu a Portuguesa Santista por 9×0, naquele começo de campeonato Paulista do ano de 43, no Pacaembu, a paulicéia entrou em transe: Sastre deu um show, fêz 6 gols!

Sastre, Don Antônio Sastre, era um mestre extraordinário. Vamos ganhar? Depende do maestro, diziam os torcedores.
Sastre era demais, era um gênio.

Sastre gostava de fazer gols no fim dos jogos.Quando faltava um minuto, se dependesse de um gol a torcida rezava: marcai por nós, Sastre! Uma vez perdíamos do Corinthians por 1×0. Sastre não estava acostumado a perder do Corinthians, depois daquela estréia nunca mais perdera deles, guardava no coração a história do “deSastre” já os goleara por 4×0 duas vezes já os arrebentara, mas não se saciava.

Havíamos vencido o Jabaquara por 12×1, sim 12×1, ninguém podia com aquele time de Leônidas, de Remo, de Bauer e de Sastre. Os contrários não se conformavam. Sastre derrubava o Palmeiras, implodia a Portuguesa, o Santos ruía a seus pés.

Veio outro “majestoso”, São Paulo x Corinthians. Sastre tinha mística predileção pelos “majestosos”.
Em 1946 diziam que o São Paulo já não podia mais ganhar dos antigos, era demais para um time que surgira do nada. E aquele “deSastre”, que tanto os humilhava?

O Corinthians fez 1, fêz 2 no primeiro tempo, 2×0 no primeiro tempo!
Queriam golear, iriam mostrar que o São Paulo jamais se ombrearia com os grandes, o jogo era deles!

Então Remo fez o nosso primeiro, Teixeirinha empatou e a um minuto do fim; quando eles se lançaram como loucos ao ataque, Don Antônio Sastre recebeu uma bola rebatida da defesa, no meio campo onde estava, partiu para frente com a elegância que o caracterizava, cabeça erguida, como uma flecha; Sastre driblou um, dois, três, quatro, ficou frente a frente com o goleiro Bino, deu-lhe um drible estonteante e foi, com a bola e tudo, fazer o mais lindo gol que o Pacaembu já viu.

Acho que essa foi a maior virada que o São Paulo conseguiu contra esse temível rival.
Sastre amava jogar contra o Corinthians, detestava perder do Corinthians, sua estréia no Pacaembu o marcara para sempre.

Sastre, o cerebral craque, manteve-se no São Paulo até 1946. Sastre não respeitava nossos rivais, gostava de implodir alvi-negros e alvi-verdes. Antônio Sastre só foi embora quando achou que não podia mais jogar, por causa da idade.

“El maestro”, se despediu num amistoso contra o River Plate, no Pacaembu, em 15/12/46.
Nenhum são-paulino se esquecerá desse dia. Quem viu, viu, teve o coração apertado, chorou; quem não viu, não viu, que chore agora, “el maestro” faleceu em Buenos Aires, em 23/11/87. Sobre o caixão do gênio, colocaram uma bandeira do São Paulo FC.

Ave, Sastre!

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