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Caros e maravilhosos iguais: hoje é sábado, véspera do jogo decisivo que decide o Campeonato Paulista de 2009. Corinthians x Santos farão a final, parece que o Corinthians vai levar, pode perder por diferença de dois gols, não sei, não tenho palpite. Confirmará Ronaldo a sua maravilhosa recuperação? Cleber Pereira fará os gols que perdeu no primeiro jogo?

Não, não sei, nem quero opinar. Eu nada ia escrever hoje. O tricolor está fora, eu também. Mas abri meus arquivos e achei um antigo esboço.

Nada tem a ver com Corinthians x Santos. Resolvi completar o devaneio que restara inacabado. Se você é são-paulino e tiver paciência, querendo me acompanhar, me honrará.

Que tal?

Era sobre alguém que adoramos que eu havia iniciado um modesto ensaio.
Permitam-me reproduzi-lo, pedirei novamente a palavra assim que chegarmos ao ponto em que me detive.

Encontrei escritas as seguintes linhas:

Meus amigos, meus queridos.

Não. Não resisti.
Vi, registrei, lacrimejei, não suportei o impulso e me rendi.

Tinha que escrever.
Então exprimo a vocês esta sensação.

Era um jogo comum, apenas um São Paulo e Lusa, em um domingo qualquer, mais um, já vi tantos jogos iguais a este, em domingos idênticos, já vi o Belline marcar o Ivair, o “príncipe”, já vi o Dias marcar o Dida, já vi o Ocimar, vi o Ditão, o Leivinha, o Dino, o Faustino, o Prado, o Pagão, o Benê, o Canhoteiro, o Leal, sim, o Leal! Já vi o Paes, o Pampoline, o Del Vecchio e o Vilela. Achava que tudo já vira, Vi o Ratinho, o Jair Marinho. Vi até o Yaúca. É, o Yaúca!

Quem se lembra do Yaúca?
Nem o Milton Neves se lembra do Yaúca. Que fim levou o Yaúca?

Ponta direita negro, pequenino, driblador. Jogou no São Paulo e na Portuguesa. Aliás, na Portuguesa e no São Paulo, veio da lusa para o tricolor.
Que fim levou?
Não se sabe.

São Paulo e Portuguesa, para mim é clássico.
E é clássico mesmo!

E a Lusa, se bobear, apronta, e ganha!
Quando se pensa que já se ganhou dela, ela apronta.

Lembro-me, nesse arroubo bloguístico, de um clássico dos anos sessenta. Sessenta e poucos. Era um sábado, sábado de carnaval.

Eu, em Atibaia, na minha bucólica Atibaia, esperava a visita de meus parentes para os festejos momísticos. Tudo se comemorava no “Clube Recreativo” do Tito Garini… O rádio de pilhas ligado, mestre Flávio Araújo narrando.

Quando o Luís Perrone chegou, naquela tarde, o jogo já terminara, 1×0 para a Lusa, gol de Sílvio. Sílvio “major”.
O São Paulo do Fefeu tudo fizera, mas dona bola…

Félix, o “papel”, pegou tudo!

Lembro-me de outro, já nos anos setenta, começo dos anos setenta, um gol espírita do Paraná! Eu e meu saudoso pai, o velho Lito, nos abraçamos como se fosse o último abraço das nossas vidas!

Lito: o Paraná errou o chute e a bola entrou!

E me vejo hoje envolvido em outro São Paulo x Lusa.
Jogo dos anos globalísticos.

São Paulo x Portuguesa no século 21, no século do “já foi”.
É assim. Tudo parece que “já foi”. Não há tempo para ser.

Cuidado! Leia o que vem abaixo!

Nesse século louco não se lê o fim da frase.

Vão abolir os pontos finais, as vírgulas, circunflexos nem pensar, que pressa!
Acompanhe-me, leitor.
Posso chama-lo de leitor?

Você é um blogueiro! Um internauta!

Marcello Lima, perdoe-me! Milton Neves, desculpe-me, são arroubos!

E eu, o que sou?
Um anônimo telespectador!
São Paulo x Lusa.

Esse é o jogo que eu acabo de ver, volta a ser o tradicional confronto, agora num domingo chuvoso dos anos globais, de narradores estatísticos e ignorantes que se esquecem da bola para ignorantemente computar. Não se lembram do Sudaco, do Cláudio Deodato, do Lorico, do Zoé, do Vadinho, do Penachio, do Serafim. Não conhecem o Orlando “gato preto”.

Vejo o jogo em HD, queria ver em preto e branco, com chuvisco, pelo canal 3, com anjinho e tudo! Narrado pelo criador do “oxo”. Ave Valter! Valter Abrãão!

Ponho dois tils, dois no Abraão dele, dois tils em repulsa à tal reforma!

De volta o curso clássico, o científico, o normal! De volta à cultura!

Vai, bola, vai. Corre, se apresenta, encanta, desfila, zomba, engana os estatísticos, me engana, trás o Julinho Botelho, traz o Serginho e o Nair, o Canhoteiro e o Jair da Costa de volta em minha imaginação!
Traz o Dener e o Ivair! Traz o Dino Sani!
Não traz. Não pode trazer.

Mas, me envolva, como sempre.
Houve algo nesse jogo que me remeteu às brumas do passado.

Rogério.
Rogério Ceni.

Já expressei minha opinião sobre quem é o mais importante jogador para a história do São Paulo. É Leônidas da Silva.
Meu único temor é injustiçar Rogério.

Não conheço Rogério. Não tenho amizade com Rogério. Acho que vi o guardião uma ou duas vezes, pessoalmente.
Adoro o jeito são-paulino dele.

Leônidas, o “diamante”, transformou o São Paulo em clube grande, o “diamante negro”, recebido em glória na Estação da Luz, fez de São Paulo a capital do futebol, e fez do tricolor um time de respeito.

Leônidas é um marco na vida do São Paulo, e de São Paulo.
Acho que Leônidas transporta o São Paulo para a grandeza.
O São Paulo é um antes, e outro depois de Leônidas.

O São Paulo não era.
O São Paulo FC só passou a ser, depois de Leônidas.
Narradores desmaiaram no Pacaembu, gritando gol de Leônidas.

Eu não vi o “diamante” jogar.

Meu pai me revelou, como se fosse um Homero, as batalhas épicas e “leonidísticas”, dos anos quarenta. Narrativas incríveis. Ilíadas, Odisséias do futebol. Eu as via, as vejo, as imagino. Leônidas é Ulisses, é Enéas, é Aquiles, é Ajax, ele é homérico.

Quixotescamente, como se fosse um personagem do incomparável Miguel de Cervantes, vejo essas epopéias.

O São Paulo ganhou o Campeonato Paulista, maior campeonato que se disputava então, em 43 e 45 e 46, 48 e 49.
O time era um encanto. Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Pardal, essa era a “linha” tricolor, que deixava São Paulo atônita. E tinha Ruy, Bauer e Noronha. Mas quem tinha o “homem de borracha” precisava de mais?

Bem.
Eram tempos de amor à camisa.

Raros.
Nunca mais.

Nunca mais?

Acho que, na vida, não há lugar para colocações definitivas. “Nunca mais” soa a caráter nos modernos tempos, tempos que se esvaem numa fração de milésimo de segundo.

Mas, o ser humano se repete e se repetirá sempre, independentemente da época em que viver. Aliás, o que é o tempo, diante da eternidade? A eternidade é o que foi, o que é e o que será.

A história, vivida e escrita pelo ser humano, se repete. Será assim, sempre.
Os ídolos se redesenham.
Foi o que eu vi hoje.

Esse Rogério, maior dos goleiros de toda a história, esse Rogério, apanhador de bolas impossíveis e marcador de gols salvadores, esse eterno menino que faz a história urrar, repetindo ídolos dos anos em que os minutos eram quase horas, se contundiu hoje, sozinho, ao despachar sua amiga bola ao ataque.
Rogério se machucou. Distensão? Quanto tempo ficará Rogério sem jogar? Os médicos dirão, amanhã.

Psiuuuu! Olá, leitor!
Conforme anunciei inicialmente, peço a palavra para completar o velho texto que abandonei nesse estado, assim como vocês leram. Achei conveniente completá-lo. Que jogo terá sido esse?

Você se lembra? Qual foi o resultado?

Era um São Paulo x Portuguesa, mais um.

Engraçado eu ter aberto meus arquivos logo hoje, curioso ter encontrado esse humilde material inacabado pois como todos sabem Rogério está contundido, quebrou o tornozelo, vai ficar muito tempo fora. Terei sido orientado pelas musas da inspiração para retomar o assunto na hora certa?
Invoco as musas! Ó musas, deixem por um instante o Parnaso e iluminem meu paupérrimo texto!

É do herói Rogério Ceni que se fala!

Quanto tempo ficará Rogério sem atuar? Essa era a indagação que eu propunha no texto inacabado. A mesma indagação pode ser proposta hoje.
No entanto, retomando o texto, prefiro desviar-me desse caminho. Pouco importa quanto tempo demorará Rogério para voltar. Sim. Porque Rogério está além da volta e além do tempo, assim como Leônidas. Repararam, leitores, no título que eu havia escolhido para a matéria? “Irresistível”. Esse era o título. Mantenho o título.

“IRRESISTÍVEL”.

É simplesmente irresistível para o são-paulino falar com superioridade de Rogério, contar vantagem evocando a figura de Rogério, cantar alto o nome de Rogério no estádio, se extasiar assistindo a um gol de falta de Rogério para quem a “folha seca” foi aperfeiçoada em algum outono especial, quando elas caem com a naturalidade de seus chutes que parecem mais um doce assopro do vento invernal, é irresistível escrever sobre a epopéia que Rogério já protagonizou vestindo a camisa do São Paulo.

Todos sabem, mas deixem-me falar, posso? Dê-me especial licença, leitor igual.

Rogério é a diferença marcante em favor do São Paulo. Os adversários reconhecem, os que não reconhecem restam desmoralizados: com Rogério em campo o São Paulo joga com um a mais, sempre.

Rogério imita o inimitável Gerson, o “canhotinha de ouro”, quando faz lançamentos precisos de quarenta metros, reproduz o perfeito Válber quando figura como elegante líbero, traz a segurança do impecável Roberto Dias quando sai jogando com inigualável tranqüilidade à frente do atônito “matador” adversário, assemelha-se a um Gino Orlando quando se espera dele um gol abençoado.

E, quando fala, antes e depois dos jogos, parece que fala por nós.

Concedam-me, leitores, durante esse lapso que impede a presença do São Paulo em campo, e durante esse tempo, em que Rogério está ausente, transformar em palavras escritas meus sentimentos sobre esse incomparável craque.

Muitos tricolores vieram me pedir para que escrevesse sobre Rogério, depois de ter escrito sobre Leônidas. É o momento.

Que goleiro, em toda a história, em todo o mundo, fez mais gols? Que goleiro foi mais precioso, mais carismático, mais temido, mais amado?

Só os atacantes são pagos a peso de ouro; às vezes um ou outro meio-campista ou zagueiro, são idolatrados. Fazer um gol é realizar o objetivo do futebol, dar um “chapéu”, um drible, um passe perfeito, enfim, tratar bem e romanticamente a bola, como se fosse uma namorada, é que leva ao êxtase. Poucos sabem fazê-lo.

A bola é caprichosa, castiga os imperitos, pune os desqualificados, esquece os medíocres. O goleiro, desde que o futebol é futebol, sempre foi um mero coadjuvante. Sem saber jogar na linha, ou era o dono da bola ou alguém para completar os onze. O goleiro sempre assistiu, ao longo dos tempos, aos outros jogarem, e mais: tornou-se um estraga-prazer. Goleiro serve para impedir o gol!

O futebol leva a um frenesi semelhante ao que leva o arroubo encontrado nas poesias antológicas, nas letras das canções românticas, nos discursos pronunciados pelos oradores abençoados, nos textos das peças virtuosas do teatro, nos enredos e cenários dos filmes premiados, nos quadros pintados pelos gênios.

Nunca foi dado, a um mero goleiro, desafiar esses mitos.

Lógico, houve tantos maravilhosos arqueiros, eu mesmo já escrevi sobre Valdir de Morais, curvo-me ao talento de Yashin, de Gylmar, de Dasaiev, de Seep Meyer, de Leão, de Manga, de tantos outros.

Mas é simplesmente irresistível falar do maior de todos eles. É irresistível escrever sobre o goleiro que ousou abalar as estruturas do futebol, impedindo a bola de entrar e ao mesmo tempo conduzindo a bola para a rede, quando e conforme lhe convém, como se fosse um mágico. Rogério, o encantador da bola. Quando voltará Rogério?

Eis o tema do texto que pretendi escrever e que estava incompleto, esquecido, abandonado.
As musas me inspiraram! As musas são semi-deusas, me induziram a abrir o arquivo das sonhadoras imagens que transformo em palavras.
Rogério assemelha-se aos heróis da mitologia. É um Hércules, um Perseu! É um mito do futebol!

As homenagens, me ensinaram os antigos, devem ser feitas àqueles que já se foram, os que já se foram não correm o risco de nos obrigar a retirá-las. Mas Rogério, não importa o que venha a fazer doravante no futebol, é inesquecível. É outro tabu que ele quebra. Que Rogério seja adequadamente homenageado em vida, em plena forma!

Meu texto velho indagava quando voltaria Rogério. Permitam-me completar meu texto e adaptá-lo ao presente.

Rogério não tem tempo para voltar. Ele voltará. Rogério volta cada vez que nos lembramos de suas defesas impossíveis, como aquela no Japão diante de um inglês arrogante, Rogério volta quando evocamos cada gol dele contra Corinthians, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Fluminense, contra o mundo, Rogério volta e voltará cada vez que os são-paulinos quiserem enfrentar fantasmas e medos.

Foi a Torcida Independente, terá sido outra (?), não sei qual torcida organizada é a autora da frase “todos têm goleiros, mas só nós temos Rogério”; terá sido o Jair Bloch, o roqueiro, em uma linda canção injustamente pouco propagada? Não sei. Sinceramente, não sei.

O que sei é que, nestes tempos, em que assistimos à final de um campeonato do qual estamos fora e em tempos em que aguardamos a retomada da Libertadores, evocar Rogério é simplesmente IRRESISTÍVEL.

Uma de minhas filhas, Karina, me pede para que escreva também que Rogério será, no futuro, o Presidente do São Paulo FC. Não me interessa. Já sabem, sou São Paulo FUTEBOL. Não sou São Paulo Futebol Clube. Karina me questiona também sobre o embate na eternidade entre o “diamante negro”, Leônidas, e o goleiro eterno, Rogério.

Não há embate na eternidade.

Se Leônidas é o maior, e reitero que é, em nosso Panteão de deuses inesquecíveis Rogério já é o Presidente, e acho que o será, por todo o sempre.

Jogue ou não jogue por estar contundido e ainda que abandone a carreira um dia, o São Paulo sempre terá Rogério, Rogério é o indelevel símbolo tricolor, Rogério é a alma do São Paulo.

Ave, Rogério!

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.

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