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“O MAJESTOSO”

Preciosos leitores, estamos uma vez mais diante do enfrentamento de dois gigantes. O destino põe cara a cara São Paulo x Corinthians nas semifinais do Campeonato Paulista e os deuses do futebol certamente já se movimentam para traçar os matizes da furiosa batalha. De que lado estarão os deuses desta vez?
Da janela de meu apartamento, no Paraíso, examino o céu no alto, em sua profunda imensidão e a terra embaixo, vista do décimo andar, em busca de algum sinal, mas chego à conclusão de que nesta ocasião os poderosos tramam em segredo, não consigo encarnar Calcas, o arúspice grego da guerra de Tróia, acho que até ele ficaria confuso com a paisagem, não há indícios proféticos sob o sol.
Onde andarão aquelas benfazejas andorinhas alvinegras com a sugestiva coleira vermelha no pescoço, cuja aparição, no ano passado, me alertou para o impossível tri do tricolor? Estarão elas aprisionadas pelos celícolas egoístas para mais ainda tornar enigmática a peleja que se avizinha e que será vivida em dois embates?

Indigente de indícios celífluos reveladores do futuro no presente atenho-me então ao passado, melhor dizendo, ao presente do passado, eis que, como sabem, para mim não há passado ou futuro; asseguro que tudo é presente, presente do presente neste exato milésimo de segundo em que você lê esta palavra, presente do futuro na expectativa do que virá, e presente do passado quando abrimos o sacrário do coração e deixamos voar leves e libertas as lembranças que a retina registrou ao longo da vida.
Não posso prever o resultado da luta que levará à final do Campeonato Paulista, não há como prever desta vez. Paciência.

Ganhe quem ganhar o que importa é que será escrita mais uma página de ouro no livro legendário da história do futebol brasileiro e você, leitor atento, mais dia, menos dia, estará, tenho certeza, revelando aos seus filhos, netos, sobrinhos ou aos amigos mais novos, quem sabe, como tudo se passou. Será como se esses dois jogos entre São Paulo x Corinthians estivessem recomeçando. É sempre assim para quem conta a história, é sempre assim para quem escuta a história.
É um lindo fim de tarde em São Paulo. Olho o cenário pela janela e vejo o sol se pondo com a vida em plena ebulição. Mas já não busco presságios. Não me concentro na multidão que cruza as ruas, não ouço o barulho frenético das buzinas dos automóveis, as sirenes não me incomodam; para mim tudo é silêncio quando adentro a noite eterna dos tempos. Estou longe em meus pensamentos e eles voam, me levando em suas asas. Revelarei a você, nostálgico leitor, o teor do meu devaneio. Siga-me, se não lhe parecer enfadonho.

Um célebre jornalista que nos anos 60 com seus cabelos de neve comandou “A Gazeta Esportiva” e cujo nome era Thomaz Mazzoni, foi o criador dos epítetos pelos quais hoje conhecemos os clássicos do futebol paulista. A São Paulo x Palmeiras Mazzoni chamou de “Choque-Rei”, a Palmeiras x Corinthians apelidou de “Derby”, a São Paulo x Santos cognominou SanSão e quanto a São Paulo x Corinthians festejou-o com o singular título de “Majestoso”.

Como você já reparou, atento leitor, Mazzoni apenas não deu nome pomposo a Santos x Palmeiras e não me perguntem por quê. Afinal Santos x Palmeiras é também um clássico especialíssimo. Talvez tenha sido em um Santos x Palmeiras que o mundo tenha visto o maior jogo de futebol de todos os tempos; um certo 7×6 em 1.959, no Super Campeonato Paulista que se disputou naquele ano. O condutor de “A Gazeta Esportiva” não encontrou adjetivo adequado para o tradicionalíssimo clássico, mas essa é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Cada vez que São Paulo e Corinthians se enfrentavam Thomaz Mazzoni mandava escrever “MAJESTOSO!” em letras garrafais na primeira página do jornal e o povo esgotava a edição em poucas horas. Nos anos 60, quando me dei por gente, eu morava na bucólica, doce e querida cidade de Atibaia. Lembro-me de que José Roberto Guelpa Rossi, o “momo”, e eu, cedo estávamos em frente à banca do “Barquetta” aguardando que a “Gazeta Esportiva” chegasse nos dias de “Majestoso”. Éramos dois garotos sãopaulinos, rara exceção dentre os muitos corinthianos, palmeirenses e até santistas da época, pois Pelé reinava e seu reinado de fantasia maravilhava as crianças.

O “Majestoso” exercia sobre mim um ímpar e misterioso fascínio. Quando São Paulo e Corinthians se enfrentavam minha imaginação fértil e pueril se dirigia para os vitoriosos anos 40 e as narrativas de meu pai sobre os feitos do “Rolo Compressor” envolviam-me completamente o espírito, era como se estivesse vendo as imagens de Leônidas, Sastre, Bauer, Remo, Ruy, Noronha, Luizinho e de tantos outros astros desfilando pelo Pacaembu lotado.

Ainda me lembro de uma batalha que meu pai evocava com requintes de detalhes. Ocorrera em 46, ano santo de um bi-campeonato paulista invicto. O São Paulo jogava desfalcado e o Corinthians completo, com Servílio e Baltazar no ataque. Pacaembu abarrotado. Começa o clássico e Savério faz, contra, 1×0 Corinthians. Passados 27 minutos do primeiro tempo, 2×0, gol de Cláudio, um ponta-direita antológico do futebol brasileiro. A torcida corinthiana fazia a festa, acabava o primeiro tempo e o que se previa era uma goleada. Vem a fase final, 30 minutos, faltavam apenas 15 e só o Corinthians atacava, empurrado pela massa. Trinta e poucos, um contra-ataque e gol de Remo, 2×1. 40 minutos, a fiel entoava o “Tá Chegando a Hora” quando Teixeirinha (que substituía Leônidas) faz 2×2. Faltava um minuto, o Pacaembu estava de pé esperando o fim do jogo: foi quando Sastre saiu em velocidade rumo à área, driblou um, dois, três, o goleiro Bino e fez 3×2 consumando a virada para espanto e delírio da platéia. Eu contava as passagens para os amigos são-paulinos com requintes e minúcias, não os queria deixar debandar, havia esperança, um dia teríamos outro Sastre.

Meu primeiro “Majestoso” ao vivo só veio em 65, aos 12 anos. Numa ensolarada tarde de domingo com o Pacaembu lotado vi, ao lado de meu saudoso pai, São Paulo e Corinthians empatarem em 2×2 pelo finado e romântico Torneio Rio-São Paulo. Não posso nem devo me esquecer do time que não me decepcionou naquele esperado 07 de março: Suli, De Sordi, Bellini, Jurandir e Renato, Dias (ainda volante) e Valter, Faustino, Del Vechio, Pagão e Paraná (que estreava). Os corinthianos já tinham Rivellino e tinham o centro-avante Flávio, um verdadeiro algoz do tricolor naquele período. Flávio era um pesadelo nas vésperas dos “Majestosos”. Geraldo José de Almeida, inesquecível narrador do Rádio e depois da TV o chamava de “o minuano”. Roberto Dias cobrou pênalti, o goleiro Cabeção defendeu e no rebote o próprio Dias fez 1×0. Flávio empatou, 1×1, tudo no primeiro tempo.

Na segunda etapa um susto: implacável, Flávio fez 2×1, de cabeça, entrando na área como um furacão, mas, no fim, em cobrança de falta impecável, Roberto Dias, com um leve toque no ângulo, empatou levando-me às lágrimas. O São Paulo não podia perder em meu primeiro “Majestoso”! No dia seguinte reuni os amigos na Praça da Matriz e descrevi a epopéia, desde a minha chegada ao Estádio. Depois fomos para o “campinho dos gêmeos”, eu me sentia o próprio Roberto Dias, o “momo” era o Pagão atibaiense…
Seriam muitos, felizmente, os jogos entre Corinthians e São Paulo aos quais eu assistiria ainda na adolescência e depois na juventude e maturidade, já vivendo na grande metrópole abençoada onde me tornei advogado e constituí o tesouro que é minha família.

Meu pai me acompanhou durante anos às partidas de futebol, a ausência material daquele caloroso sãopaulino, desde 1985, constitui-se em impreenchível lacuna; às vezes ainda sinto a presença dele ao meu lado e o procuro na fria arquibancada, para o abraço forte e carregado da emoção de outrora.
Naquele mesmo ano de 1965 o “Majestoso” seria repetido pelo próprio “Torneio Rio-São Paulo” e novamente eu voltei ao Pacaembu, na mesma companhia deliciosa de meu pai e então vi pela vez primeira uma virada do São Paulo contra o fatal adversário, ocorrência que eu considerava privilégio apenas dos tricolores do passado.

Quando Flávio, sempre ele, fez 1×0, logo aos 11 minutos do início achei que era dia de perder. O Corinthians esteve próximo do segundo gol vária vezes e desperdiçou. No segundo tempo eles atiraram uma bola à trave, com Rivellino e perderam novas chances. No final o Pacaembu se levantou para entoar “olé” e o indefectível “Tá Chegando a Hora”, pois já eram 40 minutos e o jogo só tinha mais 5 para se encerrar.
Meu pai não se movia, olhos fixos no gramado. Eu me recordava de Sastre, eu e ele ali sentados nas numeradas e a maioria das pessoas de pé, cantando. Havia um menino com uma bandeira do Corinthians na minha frente. Ele não olhava o campo, olhava para mim e exibia o pano branco com o emblema corinthiano ao centro. Eram 42 minutos da etapa derradeira. Foi Valter Zum-Zum, o ponta-direita, aquele que, recebendo um lançamento longo apostou corrida desde a linha de meio campo com dois zagueiros do Corinthians, ganhou dos dois e na saída do goleiro Heitor colocou no canto, empatando para nosso delírio. Pediram impedimento, não havia, Valter saíra do nosso campo assim como Maurinho o fizera em 1.957, para marcar em Gylmar. Houve discussão, Paraná pela primeira vez foi expulso com a camisa do São Paulo, na expulsão o valente ponta levou junto o “garoto do Parque”, Rivellino, e com os dois times com dez e o placar igual parecia que tudo estava consumado. O menino enjoado sentou-se com sua bandeira. O Corinthians deu nova saída, se lançou ao ataque impetuosamente, houve um bombardeio na área, eu pressenti o pior mas a defesa rebateu com outra bola longa espichada para o campo alvinegro; desta vez quem apostou corrida com os zagueiros Mendes e Clóvis foi o pequenino paraguaio Cecílio Martinez e o impossível aconteceu: ele fechou em diagonal entre os marcadores para o meio da grande área e atirou inapelavelmente fazendo 2×1, aos 47 minutos do segundo tempo. Não houve tempo para nova saída.

A emoção foi indescritível, o fantasma de Sastre talvez tenha ouvido as minhas preces. Até hoje vejo a bola branca preguiçosa, descansando no fundo do gol, nenhum jogador corinthiano teve ânimo para tirá-la de lá. O menino da bandeira deve se lembrar do gol, deve se lembrar do esquecido Valter Zum Zum. Suponho que se lembre também de mim…

Houve outras grandes e inesquecíveis alegrias. O gol de Prado, “o aríete”, de letra, empatando em 1×1 um “Majestoso” perdido na noite dos tempos, um espetacular 3×0 com dois gols de Babá e um do próprio Prado; o gol de Rivellino validado pelo árbitro Armando Marques quando a bola visivelmente entrou pelo lado de fora da rede, gol que de nada adiantou, pois o São Paulo vencia por 2 x 0 com tentos de Benê e Prado, um eletrizante 3×3 em 1967 no Morumbi construído pela metade, com gols de Adílson de sem-pulo, Babá e outro no fim, e contra, de nosso já ex-ídolo, Dino Sani, e que nos deu o empate, e já nos tempos mais recentes o inesquecível 4×0 com show de Renato e Serginho em 1980, a lendária atuação de Raí em 1991 com três gols para um Morumbi de mais de 100.000 pessoas e muitas outras ocasiões de júbilo engrandecem a memória dos sãopaulinos com relação a esse jogo, que é uma atração ímpar do futebol. E os 5×1 no Pacaembu em 2005, com a torcida adversária enlouquecida com a humilhante goleada? O Dr Ferreira, baluarte do Direito e da Justiça, não se esquece de outra virada no Pacaembu, nos 5 minutos finais, com gols de Everton e de um anônimo Valtinho desfazendo a vitória certa do Corinthians que se desenhara com o gol de Joãozinho para o Corinthians. Aliás, esse gol do Valtinho eu quase não vi, já estava no último degrau da escadaria das numeradas em busca do portão de saída certo de que o empate seria o destino do jogo naquele Campeonato Paulista de 1981.

Claro, houve muita coisa boa. Você também deve se lembrar de outras tantas passagens, leitor querido. Não posso descrever tudo. Fica para o livro que um dia escreverei. Não podemos nos esquecer de que Leônidas, o “Diamante Negro”, estreou justamente em um “Majestoso”, no dia 24 de maio de 1.942, no Pacaembu que recebia seu maior público na história. A partida, que virou mito, terminou 3×3 e o Corinthians, poucos se referem ao fato, também fez estrear Hércules, ponta famoso que vinha do Fluminense.
Falo tangendo a lira do coração tricolor, já sabem.

Houve também, evidentemente, muitas glórias corinthianas.
Já contei que Flávio, “o minuano”, foi uma assombração na vida do São Paulo. Flávio me roubou a alegria em muitos “Majestosos”. O São Paulo precisava fazer dois gols por clássico contra o Corinthians, pois pelo menos um o Flávio faria nos anos 60…

O que dizer da tragédia de 1.967, quando Benê nos tirou o título paulista com um gol de canela aos 44 minutos do segundo tempo quando nós é que cantávamos o “Tá Chegando a Hora” e quando a minha voz se juntava à do Pacaembu inteiro gritando “olé”, já comemorando o título e a vitória por 1×0, gol de Lourival? Treze anos de espera e tudo se esvanecia com aquele gol de Benê. Vi são-paulinos de todas as idades chorando ao fim daquele “Majestoso”. O Benê corinthiano jamais foi esquecido em razão daquela maldade que nem ele próprio comemorou num ambiente em que não se via sequer uma bandeira alvinegra.
O que dizer da fase de Geraldão nos anos 70, quando o São Paulo parecia que nunca mais iria ganhar do Corinthians? Todo jogo era 1×0, gol de “Geraldão Manteiga”, marcado em Waldir Perez, lembra-se, leitor?
Recordo-me de um desvario que cometi atirando à parede um radio de pilhas querido e talismã quando em determinada partida, em 1977, já nos acréscimos da prorrogação, Luciano marcou para o Corinthians alijando o São Paulo de um Campeonato Paulista. O desvario não foi só meu. Serginho, nosso maior artilheiro, inconformado com o azar recolheu a bola de dentro da rede e ensandecido mandou um sem-pulo em direção do banco de reservas do oponente e foi expulso.

O “Majestoso” tem alma. O “Majestoso” marca, glorifica, estigmatiza.
Quem se lembra do ídolo Raí perdendo dois pênaltis num jogo entre os velhos rivais pelo Campeonato Brasileiro de 1.999, jogo no qual a atuação espetacular do goleiro Dida o consagrou? Sim, pela derrota e pela incrível perda dos dois pênaltis culparam Raí, o mesmo craque que no “Majestoso” decisivo e inolvidável do ano anterior, 1998, voltando de Paris, dera ao São Paulo o cobiçado título paulista com uma vitória maiúscula por 3×1… E não foi também curioso o destino de Betão ao enfrentar um longo tabu sem ganhar “Majestosos” e perdendo inclusive um incrível pênalti no finalzinho de um deles, para delírio de Rogério Ceni e da torcida tricolor? Tevez e Mascherano, idolatrados pela Fiel, jamais ganharam um “Majestoso” no período em que estiveram no Corinthians, período em que o tabu insistiu em não cair. Quiseram no entanto os deuses da bola que o próprio Betão encerrasse o ciclo daquelas derrotas fazendo no Morumbi um gol esquisito e salvador, num lance em que a defesa do São Paulo parecia hipnotizada…

Assim vem se escrevendo a legenda dourada do “Majestoso”. Estamos diante de mais um embate entre esses gigantes que são Corinthians e São Paulo. Um jogo no já quase septuagenário Pacaembu, outro no quase quarentão Morumbi.

Tudo evoca a história quando se anuncia o combate “Majestoso”: a tradição das camisas, das torcidas, das viradas, das goleadas, dos tabus, dos estádios. Pena que, por causa do calendário, haja tantas outras atrações futebolísticas medeando as datas designadas para os clássicos que vão decidir o Campeonato Paulista. No passado a semi-final que se avizinha deixaria louca a cidade. Certamente “A Gazeta Esportiva” estamparia no domingo pela manhã, uma vez mais e em letras garrafais, na primeira página, o título “MAJESTOSO!”, levando os torcedores ao mais puro arrebatamento.

Deixem-me porém atravessar de volta as brumas do tempo e regressar à janela do meu apartamento no 10º andar do prédio onde resido, no bairro do Paraíso. Já sonhei. Que fique a banca de jornais do “Barquetta”, na minha bucólica Atibaia de noites estreladas para os meninos de imaginação fértil pois “A Gazeta Esportiva” não mais existe.

Quanto à minha veia profética sobre a sorte do clássico, repito, não consigo captar, no céu ou na terra, nenhum sinal sugestivo. Os deuses do futebol permanecem a guardar os segredos do destino hermeticamente fechados. Apenas por mero palpite que o coração insiste em cochichar ousarei dizer que na semana seguinte aos dois “Majestosos” semi-finais do Campeonato Paulista de 2009 escreverei sobre o também lendário “CHOQUE-REI”, através do qual se apontará o grande campeão deste ano.
Saudações tricolores, gentil leitor.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.

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