dolaresSei que o título deste post gerará sentimentos dos mais diversos. Tenhamos calma antes de sair acreditando em tudo o que se lê, inclusive aqui. É preciso ter senso crítico, saber usar a calculadora e verificar como as empresas funcionam; é com esse viés que venho dividir meu ponto de vista com nossos qualificados leitores.

Estamos chegando ao final de fevereiro, hoje é o último dia útil do mês, e um dos maiores clubes de futebol do país, um dos líderes em exposição midiática e dono da segunda maior torcida do país (Lancenet-Ibope) continua sem patrocinador publicitário desde o começo deste ano. É um fato estranho dado o crescimento que essa fonte de receita tem apresentado nos últimos anos.

Alguns órgãos de imprensa, poucos é verdade, jornalistas independentes, blogs mantidos por torcedores e outros meios dão conta que o Departamento de Marketing do S.C. Corinthians Paulista espera um contrato de patrocínio publicitário da ordem de vinte a trinta milhões de reais anuais. Os motivos e argumentos alegados sobram em quantidade e pela pobreza técnica.

Esse tema foi anteriormente repercutido pelo equilibrado e competente amigo e editor chefe do F&N, Marcos Silveira, no post “Polêmica no patrocínio do Corinthians” e a questão parece ainda estar longe de resolvida. Este post teve contribuições da leitora Yule Bisetto, do Amir Somoggi, amigo e companheiro de blog e minha, modesta por sinal.

A crise econômica, em sua face mais insidiosa e em seu efeito mais perverso, coloca as empresas num compasso de espera em que são represadas iniciativas tais como lançamento de produtos novos, projetos de comunicação, dentre outras ações estratégicas; o resultado disso é o eventual aprofundamento desta ou a demora maior na retomada do crescimento via investimento produtivo.

É neste cenário que a diretoria do S.C.Corinthians Paulista insiste em valores tão altos e nada acontece, dando combustível às mais curiosas especulações.

A mais fantástica delas, e curiosamente a mais popular que tenho visto pelas minhas andanças na Internet é que a companhia aérea Emirates Air Lines, com sede em Dubai, seria a tal patrocinadora disposta a pagar 30 milhões de reais por ano para estampar sua marca na camisa do S.C. Corinthians Paulista. Esta mesma especulação dá conta que a Emirates haveria flertado com meio futebol brasileiro. Ainda, como se vivessemos na Inglaterra, a companhia aérea construiria um estádio, traria Tevez de volta e algumas coisinhas a mais.

Claro que qualquer profissional de marketing sonharia com uma ação de patrocínio desse tamanho e dessa importância, mas e o outro lado? O que temos, o futebol brasileiro e o Brasil em si, a oferecer à empresa em troca? Muito pouco, como veremos a seguir.

Vamos a alguns pontos: tudo bem que a Emirates fez o mesmo na Inglaterra, em uma ação de sucesso no Arsenal F.C., além de outras diversas ações de patrocínio esportivo na Inglaterra como no golfe e no automobilismo, tanto no rally como na F-1, estampando sua marca no dorso e asa de minha queridíssima McLaren. Mas no Brasil a coisa funciona de forma diferente, assim como diferente é o ambiente.

A Emirates opera grande quantidade de vôos saindo da Inglaterra, não é só um por dia; tem uma classe média predominante que, por metade de um salário mínimo inglês, voa para Dubai e volta; além dessa questão, a Emirates voa, tendo Dubai como sua grande base de operações para escalas e conexões (HUB), para diversos destinos na Ásia e na Oceania, onde estão muitas ex-colônias e ex-protetorados ingleses com quem a Inglaterra possui laços comerciais e culturais intensos. Quem já passeou pelas ruas de Londres sabe do que estou falando. Em resumo, há uma massa crítica de negócios, o que possibilita a alocação de uma verba de comunicação mais robusta.

Além disso, essa verba foi alavancada pela direção da empresa em um esforço de melhorar a imagem do mundo árabe frente à comunidade ocidental. E o esporte foi a plataforma de comunicação escolhida, segundo ouvi do executivo de marketing do Arsenal F.C., Christopher Bevan, quando me reuni com ele durante minha pesquisa de campo.

No Brasil, temos uma situação diferente. Uma iniciativa de comunicação teria que levar em consideração o alcance de um público qualificado, que possa pagar mais de quatro mil reais por uma passagem aérea, além de poder custear alguma estada em Dubai ou um vôo de conexão para a Índia, por exemplo.

Duvido que algum profissional de marketing competente, dado este cenário, optaria pela mídia de massa, que é onde o futebol se insere dada a pobreza com a qual vendemos patrocínio no Brasil, como já pontuei em um post anterior.

Tentando explorar alguns números, com um vôo por dia, tem-se uma receita bruta potencial, com todos os assentos ocupados, de aproximados 800 milhões de reais ao ano.

Contando que um vôo atinge seu ponto de equilíbrio com algo em torno de 65-70% de ocupação, a margem começa a ficar apertada. Tiradas as despesas administrativas e de propaganda e marketing, o cinto aperta tal qual em uma decolagem.

Simplificando, com algumas premissas assumidas, pode-se chegar a um orçamento máximo de comunicação de uns trinta milhões de reais, que certamente serão usados em concepção e veiculação de mensagens em meios que atinjam, de forma mais eficiente, o público alvo, como jornais de TV, revistas e eventos mais sofisticados; a mídia de massa vai até atingir esse público, mas de forma muito pulverizada e ineficiente.

Talvez, em uma forma de gerar algum share of mind, poder-se-ia até investir no esporte no Brasil, mas seria uma ação secundária, que não poderia custar mais que 4 ou 5 milhões ao ano; e mesmo assim um profissional de marketing poderia decidir canalizar esforços para golfe ou tênis, por exemplo. De novo a questão do público alvo.

Estádio? Nem em sonho. Por mais que pensemos que o mundo árabe nada em um caldo feito de dólares e petróleo, não se tem notícia que eles rasguem dinheiro ainda. Desta forma, considero absolutamente improvável que tal parceria venha a, de fato, se materializar.

O patrocinador ideal para o S.C. Corinthians Paulista, a meu ver, está em fabricantes de produtos de consumo que tenham um leque de produtos que atendam as mais diversas classes sociais, em grande escala, e que tenham orçamento de comunicação que comporte ações de patrocínio do montante de no máximo 15 milhões de reais ao ano. Qualquer coincidência desta descrição com os patrocinadores da S.E. Palmeiras e do São Paulo F.C. é mera semelhança; eles parecem ter acertado mais por terem compreendido melhor o ambiente atual. Isso também é um trabalho de marketing.

Outra opção seriam os grandes bancos, públicos ou privados, mas já me foi confidenciado que os executivos dos bancos tem medo da rejeição das demais torcidas, outro paradigma que precisa se quebrado.

Espero que esta calculeira toda não tenha irritado o leitor, mas era necessária para fundamentar meus pontos de vista.

 FONTE:FUTEBOL&NEGÓCIO

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