spfc-1966DR CATTA-PRETA

 

“O ARÍETE E OS TORCEDORES DE CORAÇÃO DE PEDRA”

 

 

 

Meus iguais, quero agradecer a vocês pela retumbante repercussão do despretensioso texto que escrevi sobre Leônidas da Silva, na minha opinião o maior e mais importante jogador da história do São Paulo FC. Os mais variados sítios esportivos da internet reproduziram a matéria, inumeráveis foram os sãopaulinos e os contrários que me abordaram para falar sobre o tema, me emocionei com as calorosas manifestações exaradas neste blog e em outros endereços e, diante de tantas e tão imerecidas mesuras, resolvi acompanhar os brasileiros de todo o Brasil e reerguer a voz, em pleno carnaval. E não se assustem, levanto a voz, não para saudar Momo, autoridade absoluta do momento carnavalesco, e nem para desfolhar a margarida, (que não se cantam mais em altas vozes as velhas marchinhas inesquecíveis), mas aprumo a garganta para falar de Futebol, para uma vez mais despertar os tricolores para as maravilhas da nossa fértil e edificante história.

Nem todos sabem que eu não sou tão novo assim que possa falar sobre Sastre, sobre Bauer e sobre Remo, e que não sou tão velho assim que me atreva a esquecer dos tempos modernos e pós modernos, pois é próprio dos mais antigos que se olvidem do presente, e que o desmereçam, em favor do passado.

Uma vez escrevi, e não me arrependo de tê-lo escrito, que só acredito no presente. Para mim, só existe o presente; presente do presente, presente do passado e presente do futuro. Lembranças, projeções do incerto amanhã e o momento que se esvai, mas tudo é presente.

Cantei Leônidas, o incomparável diamante, mas antes escrevi sobre Roberto Dias, meu ídolo palpável. Não vi Leônidas jogar, Roberto Dias jamais me cansei de ver, embora tenha visto tantas vezes.

Dias foi o maior zagueiro que a minha visão registrou no sacrário do coração. Amigos meus, estou muito romântico para uma segunda-feira de carnaval! Perdoem-me: Dias é um marco indelével da epopéia tricolor. Dias é herói da resistência, assim como o jogador ao qual me referirei hoje. Outrora escrevi também modesto texto sobre Dino Sani, “il signore Sani”, como ficou conhecido em Milão esse mestre de quem a bola era aluna aplicada. Mas, de Dino, pouco, muito pouco me lembro jogando bola.

Quando me dei por jovem o São Paulo construía lentamente o Morumbi depois de se ter feito grande com a contratação de Leônidas, mas abrira mão da glória de vencer, confiante em seu projeto de ser dentre os grandes o primeiro, conforme pressagiava o seu hino, composto por Porfírio da Paz numa tarde em que perdera a casa onde morava em razão de dívidas contraídas para ajudar a levantar o renascido clube. Monsenhor Bastos abençoou a quixotesca obra da construção do Morumbi em 1.952 e nos anos 60 ela ganhou extraordinário impulso. O São Paulo vivia do sonho de inaugurar o Morumbi, um tijolo era uma barra de ouro, o resto não importava.

Os dirigentes Laudo, Aidar e Raimundo haviam substituído os craques Rui, Bauer e Noronha, mas a torcida, acostumada com o “rolo compressor” de Gijo, Savério e Renganeschi, ficava revoltada.

Os meninos da época voltaram a nascer palmeirenses e corintianos e começaram também a nascer santistas, porque Pelé, um mágico incontrolável viera à luz terrestre e Pelé, com a bola nos pés, realizava prodígios.

Eram ameaçadoras as perspectivas. Fracassaríamos de novo?

Amigo leitor, não foi fácil.

Enquanto o Morumbi era vagarosa e silenciosamente construído, o Santos FC tomava conta da década conquistando tudo, o Palmeiras ousava violar a rotina ganhando um ou outro minguado título, com a sua academia, e o Corinthians triplicava a sua torcida, pois os corintianos, parece que se multiplicam teimosamente com as derrotas. E o São Paulo?

O São Paulo, sob o ponto de vista dos meninos sãopaulinos da época, novos torcedores dos anos 60 como eu, herdeiros das legendas douradas, o São Paulo acreditava no presente do passado longínquo, que tivera Leônidas, e que ainda tinha, no presente do passado recente Zizinho, o mestre Ziza, herói do título paulista de 57 reluzente na memória e nas escalações que os já velhos vivos tricolores recitavam, pois eram nossa última glória: Poy, De Sordi e Mauro, Dino, Victor e Riberto, Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro…

Mas a realidade era outra e era madrasta para os meninos que tinham o diamante negro como ídolo nos anos 60! Nosso time, naqueles anos indigentes de títulos só tinha o Dias e os adversários mais jovens e contrários que conosco discutiam nada sabiam sobre Leônidas, sobre Zizinho ou sobre a nossa legendária epopéia. Não posso esconder nada de vocês, meus diletos semelhantes. Os adversários fingiam que Zizinho não existia! Retorquíamos, eu e outros, claro, com a santidade de Roberto Dias. Mas era pouco, muito pouco. Digam o que disserem, eu, de minha parte, naquela época contestei muitos palmeirenses, santistas e corintianos usando uma arma poderosa, convincente e amedrontadora, e não era o Roberto Dias…

Roberto Dias era um verdadeiro apóstolo.

Mas, Roberto Dias não resistiu sozinho aos tempos das vacas magérrimas.

Quero falar aqui, meu igual, sobre um jogador que marcou época no São Paulo dos anos 60. Não me esqueço de tantos quantos envergaram a sagrada camisa do “Bem Amado” (alguém há de fazer uma faixa e levar ao Morumbi com o distintivo do São Paulo e com essa frase, o “Bem Amado”, o epíteto está no nosso hino), foram muitos os abnegados que suaram e ressuaram a nossa camisa, mas houve um artilheiro que resistiu, como ninguém, assim como resistiu Dias, aos alvorotados anos 60.

Falo de Antonio Francisco Bueno do Prado, o Prado de tantos gols, o Prado que era a minha esperança quando perdíamos ou empatávamos e que era o santo da minha fé para golearmos quando o placar estava ao nosso favor.

Prado foi meu ídolo e tenho certeza de que foi ídolo de muitos e muitos sãopaulinos desesperançados nos anos 60. Nós, os sãopaulinos dos anos 60, fomos os “sãopaulinos de pedra”, fomos forjados banhados em lágrimas e na forja fria da futura e tão esperada glória. Éramos os fortes “sãopaulinos de pedra” porque resistíamos ao inverno de títulos; os nossos corações para enfrentar as mazelas haviam de ser de pedra!

Éramos todos nós no entanto dotados de corações confiantes em futuros Dias e nossos corações não eram apenas corações de pedra, eram também corações de Prado!

Em Prado depositávamos nossas expectativas de um golzinho, um só, para empatarmos o jogo perdido ou para que vencêssemos o jogo impossível. Prado, com suas meias arreadas, menino lépido e concentrado, transformou-se, desde que chegou ao Morumbi, vindo do Bragantino em 1.961, em nossa maior arma. Prado, franzino e com as pernas finas, batia faltas com violência impressionante, Prado era de uma agilidade incrível, era veloz como uma flecha, vinha de trás, como um bólido, invadia a área, com ou sem a bola, para deixar as defesas adversárias loucas!

Prado era, e é, para os que gostam de estudar Futebol, a melhor definição do chamado “ponta de lança”, que hoje não existe mais, mas que voltará a existir, quando o Futebol voltar a ser bonito.

Prado saía da intermediária do campo do adversário voando, com a sua característica velocidade, do meio para lado direito de quem ataca, e poucos o continham.

Era hábito de Prado fazer gols nos minutos iniciais das partidas, os adversários ainda se colocavam em campo e ele já estava preparado, como se estivesse jogando há 30 minutos.

Quantas vezes, ao lado de meu saudoso pai, no estádio ou pelo rádio, gritei gols de Prado.

Ele era um feiticeiro.

Os corintianos que o digam. Tenho um amigo corintiano, da minha idade, que até hoje tem ódio desse histórico e lendário artilheiro, pequenino, porém valente e veloz; esse amigo e muitos corintianos se arrepiavam quando viam a bola cruzada na área de Heitor, de Marcial, de Mauro, de Barbozinha, de Cabeção e de tantos outros goleiros corintianos da época e assistiam atônitos a uma cena comum: Prado chegava antes dos zagueiros, vinha de emboscada para balançar impiedosamente a rede.

Uma vez Prado fez um gol de letra no Corinthians, eu estava no Pacaembu. Vou contar a vocês.

Perdíamos por 1×0, o jogo chegara aos 35 minutos do segundo tempo, Renato, um lateral que viera do Grêmio, avançou pela direita do ataque, do lado da inesquecível, romântica e saudosa “Concha Acústica”, foi à linha de fundo em passadas largas e cruzou rasteiro, no meio da área; Prado, como um raio, apareceu entre duzentos alvinegros e quase passou da bola, quase… Fez de letra o gol salvador!

Vi, com incomensurável prazer, muitos gols de Prado iguais a esse e sempre providenciais, contra o Palmeiras, contra o Santos e contra a Lusa, que nessa época era grande.

Em outra ocasião vi Prado dar um show no Pacaembu, ostentando a camisa da seleção brasileira, em jogo noturno, fazendo dupla de área com Servílio, do Palmeiras. Para que ele jogasse, ninguém mais do que o grande Coutinho do Santos FC, ficara no banco de reservas. Foi uma vitória inesquecível sobre a seleção húngara do craque Albert, por 5×3, e ele, Prado, deixou tontos os adversários húngaros e fez atônita a torcida brasileira…

Prado envergou dezenas de vezes a camisa canarinho, fez dupla com Pelé, jogou ao lado de Didi e de Zagallo. Do São Paulo, ele e Dias, eram nossos representantes na seleção. Prado era a cara do São Paulo nos anos 60.

A torcida sãopaulina não pode se esquecer desse ídolo.

Detesto estatísticas, já revelei, principalmente quando são lançadas em meio às transmissões dos jogos. Aqui sou um pretenso e humilde historiador, não vou incomodar ninguém com estatísticas desnecessárias, mas anotem:

Prado é um dos “dez mais” da artilharia do São Paulo em todos os tempos, em 242 jogos fez 122 gols, isto é, mais de meio gol por jogo!

Numa tarde quente, num domingo no Morumbi erguido ainda pela metade, vi Prado fazer 4 gols contra o Noroeste, o Noroeste do meia Araras e do excelente Daniel, o incrivelmente forte Noroeste que havia de disputar naquele ano o título paulista com o Palmeiras; foi um gol mais lindo que o outro do Prado e eu, menino sonhador, até pensei que o São Paulo daquele dia poderia bater o Santos de Pelé.

Prado é um personagem marcante da história do São Paulo.

Valter Abrão, um dos inventores da narração esportiva pela TV, um maravilhoso narrador que nunca fez das estatísticas muleta e para quem um jogo sem gols era um jogo oxo, (ocho), ele, o grande Valter Abrão, da antiga TV Tupi, deslumbrado com a rapidez e com a objetividade letal de Prado nos anos 60, o apelidou, de “aríete”.

Estavam na moda os filmes épicos, os estúdios de Hollywood tentavam reproduzir as batalhas e os métodos bélicos que haviam levado Roma a conquistar o mundo.

Valter Abrão então, do alto de sua sabedoria e, usando seu tradicional carisma, apelidou Prado, o ponta de lança daquele São Paulo combalido dos anos 60 de “o aríete” e ninguém foi mais feliz do que ele ao epitetar o craque, pois o definia de forma perfeita e a definição serve até hoje para mostrar às novas gerações quem foi Antonio Francisco Bueno do Prado, o Prado, resistente herói da epopéia tricolor dos anos de pedra: “aríete”, segundo o mestre Silveira Bueno, significa a “antiga máquina de guerra dos tempos das conquistas romanas, formada de uma trave que terminava por uma peça de bronze em forma de cabeça de carneiro e que servia para derrubar portas e muralhas”…

A definição é perfeita.

Foi com esse “aríete” que o São Paulo se defendeu e atacou nos tempos em que fantasmas nos assombravam. Foi com o “aríete” que eu vi o São Paulo vulnerar defesas invencíveis.

Hoje, nós é que somos os fantasmas dos antigos fantasmas.

Sabem vocês que eu sou São Paulo Futebol. Nada tenho a ver com o clube, reitero essa posição.

Ouvi, no entanto, recentemente, do atual representante do marketing do São Paulo FC, que serão feitas homenagens aos nossos heróis e ao nosso sãopaulinismo; está anunciado que serão placas ou estrelas edificadas no solo sagrado de nossa praça esportiva. Foi dito que haverá até patrocínio promovendo as tais placas reverenciais!

Que assim se faça! É preciso homenagear nossos deuses imortais para que os novos não deixem apagar a chama perene que ilumina o caminho da tradicional fé tricolor.

Prado mora no nosso coração.

Em nome daqueles que amam o São Paulo e que prezam a história advirto: Não se esqueçam de imortalizar também, e em bom e visível local, com reluzente placa para a eternidade, não se esqueçam, repito, de prestar justa e já tardia homenagem ao destemido e já quase esquecido artilheiro Prado, o “aríete”, símbolo inesquecível da resistência dos torcedores dos anos 60, os obstinados torcedores de “coração de pedra”.

 

 

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e sãopaulino.

       

 

  

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