leonidas-da-silvaDr. Catta-Preta

 

O MAIOR JOGADOR DA HISTÓRIA DO SÃO PAULO 

 

 

 

Meus grandes amigos sãopaulinos, como cantava em tempos idos o saudoso Nelson Gonçalves e tal qual recanta em tempos hodiernos o rei, Roberto Carlos, eu voltei.

Não se abalem, não virei cantor, não vou cantar.

Depois de prever o título brasileiro de 2.008 e despido dos oráculos que orientaram Calcas, voltei sem subterfúgios mágicos ou proféticos e após meditar sobre esses quase 75 anos da história tricolor…

Tenho credibilidade, são 56 anos de sãopaulinismo!

Quero, em poucas linhas, que talvez se transformem em muitas, (quando falo de amor não me contenho) e sem pretender cansar os meus parcos leitores, se é que os há; divagar sobre o tema que encima a matéria. Quem é o maior jogador da história do São Paulo FC?

Vou dar a minha opinião. Sem influências de videntes, de torcidas, sem pressões, sem rodeios, independentemente, na acepção da palavra, sim, porque sou independente, falarei respeitando as ordens impositivas da razão, às quais sempre acatei.

O São Paulo tem história e pré-história, sabemos.

Oriundo do Paulistano, que não se curvou ao profissionalismo, teve um ensaio de vida em 1.931, mas sob o peso da soberba dos costumados com a glória e deitado em berço esplêndido nos louros do tradicional clube da elite da terra de Piratininga, aprendeu que a sua sina era a de aproveitar a inteligência dos seus parcos e apaixonados condutores.

Porfírio, Cônego Bastos, Pedrosa, Cícero, Manuel Raimundo, Laudo, os do “grupo da sela”, os Haidar, quantos são nossos heróis imortais que, com inteligência, moldaram, do nada e do impossível, o maior clube da América Latina!

Lembro-me de um aniversário do Marcello Lima em um restaurante de São Paulo. Faz tempo. Lá estavam muitos dirigentes tricolores, todos iluminados pelo brilho que a direção dessa agremiação hoje propicia, havia ilustres personalidades, jornalistas, fãs do aniversariante Marcello, que, me lembro, estava acompanhado de sua ilustre família, liderada pelo nobre Maurício Lima.

Naquela noite, entre um e outro uísques, ensaiei esse meu incerto arroubo literário, pois depois disso muito meditei sobre as ponderações que aquele  convívio festivo me proporcionou, ao lado de historiadores do futebol.

Mero torcedor, quando recitei o “onze” que primeiro ostentou o nosso manto, em 25/01/36, dia do aniversário de nossa cidade, em amistoso contra a Portuguesa Santista, no Parque Antarctica: King, Rui e Picareta, Ferreira, José e Segôa, Antoninho, Gabardo, Juca, Carrazo e Paulinho, os cardeais tricolores presentes quiseram saber se eu era sócio do São Paulo, se eu era do “Egrégio Conselho”, ou se eu estava louco! Sim, porque sustentei, depois de contar o que sabia do clube que amo, que, em plena época do já legendário Rogério Ceni, que Leônidas da Silva é, e sempre será o maior craque de nossa epopeia.

 

Ninguém, além de mim, ninguém mesmo, recita espontaneamente essa escalação de nossa primeira formação como se estivesse se referindo ao time de hoje, há sempre uma ponta de inveja dos mais velhos, que tudo sabem, mas cuja memória enfraqueceu, há sempre uma indagação dos néscios, uma contestação dos oportunistas, uma lembrança errônea dos desatentos, uma indignação dos que, no poder, se julgam senhores do nosso passado, arvoram-se em proprietários do nosso presente e se proclamam construtores imprescindíveis do nosso futuro.

O saudoso e admirável presidente Marcelo Portugal Gouveia (que Deus o tenha!), perguntou-me, na ocasião, se eu sabia algo da administração atual do São Paulo, que autoridade eu tinha para falar sobre a agremiação e etc, e eu lhe respondi que era só um são paulino apaixonado, que não era sequer sócio, nunca fora, mas que ele, como presidente, era São Paulo FC e eu, apenas São Paulo FutebolSem clube.!           

 São Paulo, Futebol!

Time!

Perdoem-me. Não frequento o São Paulo FC., nunca frequentei o clube, não vou, e nem posso, julgar seus diretores, do passado ou do presente. Falei naquela noite e falarei sempre apenas como torcedor, modesto torcedor de arquibancada que é o que eu sou, eu, que detesto as numeradas, desde que me conheço como pessoa.

Aliás, não quero falar de dirigentes, só de passagem.

Quero falar da história do São Paulo, quero repetir o que falei naquela noite de aniversário do Marcello Lima, pois meditando bem, reitero minhas posições então expendidas, mesmo depois de alguns anos e de outras glórias e de novos personagens sobrevindos que podem se atrever a me desmentir. Falo com o coração e isento de influências, falo como torcedor, entenderam?

Então, está bem.

Permitam-me. Tenho como guia o equilíbrio.

Se eu me desequilibrar amparem-me!

O São Paulo de Porfírio, autor de nosso hino, o São Paulo legado do Paulistano, multicampeão de Fried, do amadorismo, morreu e renasceu, qual fênix.

Houve campanhas nas ruas da Capital para que ressurgíssemos depois das fusões, houve apelos pelos canais de comunicação, houve rezas e não faltou desespero, tudo para que nos mantivéssemos vivos, para que pudéssemos pelo menos, entrar em campo, para enfrentar os grandes, para afrontar Palestra e Corinthians, como fez Davi com Golias. E olhem que eram dois gigantes!

Concentramo-nos na igreja da Consolação, (sabia meu querido igual?) não tínhamos estádio, nossa torcida era um grupo de dissidentes almofadinhas do Paulistano, éramos onze camisas, e só.

Nada do nada.

Não havia lugar para um terceiro “grande” em São Paulo, estávamos fadados, com todo o respeito, a ser um Juventus, entenderam?

Ou nem isso.

Eles, Corinthians e Palestra, haviam sido fundados há mais de vinte anos…

Italianos e espanhóis.

Nem sei como sobrevivemos.

Louvo aqueles que nos conduziram, imagino como tudo tenha ocorrido. Virgílio, ou Homero escreveriam a Sãopaulinicéia, detenho-me, que fique para os maiores essa missão. E serão alongados tomos.

O São Paulo é, e sempre será, o clube da fé!

Mas, compare, leitor atento, compare de forma minuciosa o que somos e o que fomos, e então, conclua sobre quem é o maior craque da nossa história.

Esqueça do Campeonato Paulista de 2009. Vamos ganhar, se houver dedicação. Ninguém pode conosco.

Raciocine comigo.

Nossos atuais Centros de Treinamento, nossa excelência, nosso equilíbrio, nossa apregoada superioridade, o Morumbi, o hexa, os tri mundiais em confronto com o nosso nada, com a nossa pobreza com a nossa quase indigência daqueles anos 30, quando viemos à luz.

Tínhamos apenas uma modestíssima sede administrativa, o Canindé era um pasto, do qual os alemães haviam desistido, dizem até que estivemos por soçobrar. Soçobraríamos, certamente, se não fossemos Quixotescos.

O São Paulo é o clube de don Quixote, o São Paulo é a realização dos sonhos de Miguel de Cervantes e Saavedra, criador do personagem que acreditava em quimeras.

Eu também sou um sonhador, não poderia ser senão um sãopaulino, como você.

Depois de tantas mazelas, em 1942, seis, sete anos após a segunda fundação, devendo muito dinheiro, já desacreditados pelo mundo do futebol e alvo de todas as ironias, além de outros coadjuvantes, como se tivéssemos enlouquecido, trouxemos, por impensáveis e impagáveis 200 contos de réis, Leônidas da Silva, detido no Rio de Janeiro por causa de problemas com o Exército, brigado com o Flamengo e simplesmente o maior craque do Brasil, e do mundo, pois tinha sido o artilheiro da Copa de 38, na França.

O “diamante negro”, como era conhecido, (até hoje existe o chocolate diamante negro, conhece, leitor?), o maior dos executores da “bicicleta” de todos os tempos, revolucionou a vida do futebol paulista, assombrou a parceirada, e transformou o São Paulo em grande, o minúsculo São Paulo ficou repentinamente enorme, tão grande quanto Palestra e Corinthians.

O maior público de nosso maior estádio de então, o Pacaembu, é o da estreia de Leônidas, Leônidas despertou as crianças para a beleza da camisa tricolor, Leônidas aguçou as moçoilas para o nosso distintivo, Leônidas definiu a cor dos indecisos, Leônidas acordou futebolisticamente a cidade de São Paulo, Leônidas nos transformou em um time grande, desde o dia em que ele aqui chegou. Pasmem, a estação da Luz teve o seu maior momento de glória, ele foi carregado em triunfo até o Largo de São Francisco, aquele negro nos braços do povo ensejou, na espontaneidade de uma senhora, que nada conhecia do futebol, a frase “será o Benedito”? como se ele fosse um santo milagroso carregado no andor, o “diamante” nos metamorfoseou, a crisálida são paulina, num passe de mágica, livrou-se dos seus andrajos e fez-se linda, principesca, soberba e temível.

Leônidas estreou e a partir de sua estreia locutores desmaiaram com seus gols, torcedores enfartaram, gente morreu em campo, de emoção, os adversários passaram a odiar os sãopaulinos, sinal inequívoco de que, a partir dessa efeméride, o futebol, em São Paulo, jamais seria o mesmo.

Não foi o mesmo. Tudo mudou.

Leônidas brilhou, goleou, namorou, dominou a cidade, virou o rei da Pauliceia e reinou de 1942 a 1951, fazendo do São Paulo FC o “rolo compressor”, vencedor dos campeonatos de 43, 45, 46, 48 e 49, Leônidas foi a alma e a cara do São Paulo, que não tinha cara e que nada havia ganho até então. Leônidas marcou gols lendários, antológicos e ciclísticos, fez dos sãopaulinos os reis do Pacaembu, ninguém mais do que o São Paulo ganhou nesse estádio enquanto o “diamante” em São Paulo jogou, e, de quebra, ainda foi técnico do clube.

Querem mais,leitores?

Ora (direis), tivemos, Sastre, Zizinho, Gino, Dino, Dias, Gerson, Pedro Rocha, Raí, Careca, Müller (encontrem outros tantos) e tivemos, e temos, Rogério Ceni, sim, ele, Rogério Ceni, ave Rogério Ceni! Evoé! Vai ser presidente, é meu ídolo, bate faltas, é artilheiro, líbero, inovador, ama o São Paulo como um sãopaulino da geral, é um emblema, é um único, mas, calmaaa.

Naquele dia, dia de comemoração de um longínquo aniversário do Marcello Lima sustentei que foi Leônidas o nosso maior jogador.

E olha que o Rogério ainda ia fazer mais!

Previ que faria, e fez!

Mas eu mantenho. Estamos cobertos de glórias, sobrevindas àquela data!

Mas mantenho, rigorosamente, a minha opinião.

Sãopaulinos novos, atenção! Antigos sãopaulinos, eia!

Somos hexas, somos tris, somos os melhores diante do que poderíamos ser.

Mas, temos memória!

Ninguém desmente os números e os fatos!

Amo Rogério, Roberto Dias é um deus, foi com ele e com os gols de Prado que nos vingamos dos tempos em que, construindo o Morumbi, amealhamos o nosso patrimônio, nos tornamos um clube de verdade e evoluímos, para sermos o que somos hoje, na era Cenística, na era de Rogério, o quebrador de recordes.

Mas, quem se comparará a Leônidas da Silva e quem ganhará a sua importância no contexto histórico da vida tricolor?

Ninguém. Repito: ninguém!

O São Paulo FC tem duas histórias, uma antes e outra depois da vinda do “diamante”.

Leônidas transformou o São Paulo em um time grande, Leônidas transformou a cidade de São Paulo em sãopaulina, o resto vem depois, o clube, inclusive, vem depois.

Muito depois.

Se a construção do Morumbi consumou nossa grandeza, devemos, no campo, a Roberto Dias, fora do campo a tantos abnegados, evoé Cícero, Paulo Machado e Laudo; se as conquistas de hoje nos eleva ao ápice, devemos a Raí, Müller, Careca e outros contemporâneos. Nossa estrela eterna? Rogério! Louvo Gerson, Pedro Rocha, saúdo Telê, mas se não fosse a magia da chegada de Leônidas nem grandes seríamos, duvido que tivéssemos a torcida que temos, pois a cidade de São Paulo era dividida entre Palestra e Corinthians, talvez o São Paulo FC tivesse fechado as portas.

Digo com sinceridade, com isenção e com ternura o que estou dizendo.

Conheci Leônidas.

Na rua Manuel da Nóbrega, onde morei durante anos, muitas vezes caminhei ao lado dele rumo à Avenida Paulista, ele ia para a Rádio Jovem Pan, onde trabalhou como comentarista, eu ia para o meu escritório de advocacia, na Praça da Sé.

Meu pai me contara as histórias do “diamante”, parece que as tinha visto.

Dizem que ele era arrogante. Os reis são arrogantes. Podem. Garanto que com o rei Leônidas não havia arrogância. Leônidas não era um rei arrogante. Tinha um sotaque carioca, não me esqueço de sua modéstia quando, respondendo aos meus múltiplos elogios e ao relembrar-lhe das glórias tricolores de que ele era o maior personagem, retorquia dizendo: “menino: quem te contou essas histórias?”

Não as desmentia.

O “diamante” é o maior jogador do São Paulo FC, em todos os tempos.

Brilhará na memória dos justos como o maior.

Foi Leônidas quem fez do São Paulo FC um time grande e depois um clube grande.

O São Paulo não é grande, é enorme, hoje.

O São Paulo de hoje tem o tamanho de Leônidas.

Ponto final.

 

Dr. Catta-Preta é advogado e sãopaulino

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