Convidados


duas-caras

Vanderlei Luxemburgo reproduziu em seu blog o ótimo texto de Danuza Leão publicado na Folha de São Paulo para cutucar implicitamente Muricy Ramalho. Faço questão de reproduzi-lo aqui no blog, pois me identifiquei muito com o que diz a brilhante Danuza. Convivo com muitos falsos amigos, principalmente no ambiente profissional. Com certeza, você, meu amigo leitor, também já teve ou tem o desprazer de conviver com esta espécie tão comum no dia a dia.

DANUZA LEÃO
O pior inimigo é o falso amigo
Volta e meia faz comentário sobre você, maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar

Já que é inevitável ter inimigos, a coisa melhor do mundo é ter um de verdade: que te odeie com lealdade e sinceridade -sem nenhum fingimento.

Ele é capaz de falar mal de você em público sem ter, em momento algum, medo de que repitam o que ele disse. E também pode te dar um tiro ou uma facada, mas sem nunca te enganar -sempre numa boa.
Não é, positivamente, do tipo que diz “vou te contar uma coisa, mas não repita, fica só entre nós”.

Dele você pode esperar sempre o pior: que impeça que aquele negócio que estava planejando havia anos se realize, que diga àquela gata que está povoando seus sonhos que você é um cafajeste, que o dinheiro que você esbanja vem do tráfico de drogas -ou coisas ainda piores.

Sabendo do que ele é capaz, você pode sempre se defender -o que é mais fácil do que lidar com a hipocrisia.

Como guerra é guerra, nada que ele faça de ruim poderá surpreender -essa é a vantagem de ter um inimigo leal. Quando se encontram num restaurante, você já sabe que deve ficar alerta e se sentar de costas para a parede, como fazem os malandros.

Ele é capaz de seduzir sua filha menor, de contratar alguém para roubar seus documentos e de jurar sobre a Bíblia sagrada que viu você subornando um político.

Tudo faz parte, e quanto mais coisas ele fizer contra você, mais você aprende a se defender; como se aprende com um inimigo assim -ah, como se aprende.

Perigosos mesmo são os pseudo-amigos, aqueles que te tratam bem e que volta e meia fazem um comentário sobre você -maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar-, afinal, é apenas uma brincadeira, será que você perdeu o humor?

E aquele que passou anos construindo a imagem do bom caráter de carteirinha pode fazer você levar a vida inteira na dúvida, sem ter coragem de encarar a verdade: que se trata apenas de um crápula.

A tal da imagem ilude muita gente, que durante anos pensa que o personagem é defensor das boas causas, dos fracos e oprimidos, e sempre politicamente correto -faz parte do modelo, claro.

Incapaz de encarar uma briga de frente, ele não consegue nem ter inimigos, pois, como ser humano, não passa de uma fraude -e de um covarde.

Está sempre atrás de alguma vantagem -alguma pequena vantagem- e frequentemente comete traições -pequenas traições que dificilmente poderão ser comprovadas. E se alguém ousar acusá-lo de alguma coisa, sempre haverá alguém para defendê-lo -afinal, de uma pessoa com um passado tão correto, só um louco ousaria dizer alguma coisa.

Suas maldades e falhas de caráter nunca são grandiosas, porque nada nele é grandioso.

Suas maldades são pequenas, porque tudo o que ele faz é pequeno; pequeno como sua pessoa, como sua alma. Mas, às vezes, se tem que conviver com gente assim -como fazer?

Se for seu caso, não faça nenhum tipo de concessão.

Cometa um assassinato, internamente, e esqueça de que ele existe -mas esqueça mesmo. Mas atenção: é importante que ele saiba que você sabe perfeitamente quem ele é.

Fique cego quando passar por ele, e se alguém mencionar seu nome, não ouça; esqueça das mesquinharias de que é capaz um pobre ser humano.

E valorize seus inimigos, os bons. Eles estão sempre dispostos a liquidar com você, mas sempre com a maior lealdade.

danuza.leao@uol.com.br

Monsenhor Bastos

Cada clube tem um símbolo pelo qual é conhecido, às vezes é um bicho, às vezes é um dístico.

Todos têm um dístico, todos têm um símbolo. Há clubes que se destacam tanto pelo símbolo quanto pelo dístico.

O São Paulo é representado por um santo, o São Paulo é a encarnação futebolística do apóstolo Paulo e é também chamado de “O clube da Fé”.

O apóstolo Paulo é o nosso símbolo, “Clube da Fé” é o nosso dístico tradicional.

Acho que tanto nosso símbolo quanto nosso dístico explicam tudo quanto eu passo a relatar agora.

Quando o São Paulo foi refundado, em 16/12/35, já contei essa epopéia, éramos só onze camisas, uma bandeira e um grande sonho.

Não tínhamos campo, não tínhamos sede, não tínhamos torcida, não tínhamos jogadores.

Alguns admiradores do Clube Atlético Paulistano não se conformavam com a idéia de o clube parar de jogar futebol e então resolveram criar o São Paulo FC.

Dentre os pioneiros que sonharam o grande sonho de recolocar um time com o perfil da cidade em campo estava alguém muito especial, Francisco Bastos.

Francisco Bastos nascera em 11/09/1892, era um paulistano da gema.

Logo, o menino Francisco foi associado pelos pais ao Clube Atlético Paulistano, Francisco freqüentava o Paulistano desde a mais tenra idade, Francisco vibrava com o time de futebol do Paulistano, um time multi-campeão que tinha no ataque o implacável goleador Friedenreich, o Pelé dos tempos antigos. Francisco ia a todos os jogos do Paulistano.

Quando Francisco cresceu, a fé religiosa e cristã tomou conta de seu coração, o jovem resolveu abraçar o celibato clerical.

Então Francisco foi para o exterior e fez-se padre.

Quando o padre voltou ao Brasil, o Paulistano estava desistindo do futebol. Francisco não se conformava com a atitude de abandono do Paulistano, ele tinha um coração religioso e ao mesmo tempo esportista, Francisco então resolveu acompanhar os revoltosos sonhadores que fundaram o São Paulo FC.

Na ata original de fundação do São Paulo FC está estampada a assinatura do Cônego Francisco Bastos, décimo-primeiro subscritor daquela lista de são-paulinos históricos, que iriam, a longo prazo, mudar o cenário esportivo nacional.

Ao mesmo tempo em que ajudava a fundar o clube, Francisco Bastos foi ser o pároco da igreja da Consolação, no centro da cidade de São Paulo.

Francisco usava batina preta, naquele tempo padre tinha que usar batina preta; Francisco foi à reunião histórica de 16/12/35 vestindo a batina que lhe era imposta pelo clero.

Tudo era proibido aos padres. Tudo? Tudo não. Quase tudo. Ninguém, nem o papa, impedia um padre de ser são-paulino.

Francisco Bastos estava apaixonado pela idéia de fazer o São Paulo FC manter-se vivo.

Então, se tornou uma figura legendária da nossa história.

Monsenhor Bastos, como era conhecido, logo cativou os paroquianos da Consolação.

Pregava com sapiência, orava com dedicação, era caridoso, ajudava os fiéis, todas as missas rezadas por Monsenhor Bastos eram concorridas e não havia quem não admirasse aquele padre humilde, de voz suave, que exortava a bondade.

Mas hora de pregar era hora de pregar, hora de orar era hora de orar e hora de acompanhar o São Paulo era hora de acompanhar o São Paulo. E nessa hora Monsenhor Bastos se tornava um leão.

Conta-se que os hábitos dos domingos religiosos da capital mudaram enquanto Monsenhor Bastos esteve à frente de sua paróquia.

A missa das 18:00 hs começava britânicamente no horário, salvo nos domingos em que jogasse o São Paulo no Pacaembu. Nesses domingos o padre ia ao jogo, sem o padre não havia jogo e as partidas terminavam às 18:00hs. Portanto a missa só se iniciava às 19:00hs.

Monsenhor Bastos ia aos jogos com a mesma entrega espiritual que dedicava às suas homilias. Era fanático. O padre se sentava nas arquibancadas, uma vez identificado os adversários faziam troça.

Se o São Paulo perdesse gritavam que “era culpa do urubu”, se ganhasse queriam sua expulsão da igreja, levara Deus a interferir no resultado.

Francisco Bastos foi personagem de histórias verdadeiramente inesquecíveis. Uma vez ele estava sentado na arquibancada. Eram tempos românticos, as torcidas se misturavam, não havia divisão de torcidas.

Monsenhor Bastos podia ser visto naquela ocasião acomodado ao lado de três ou quatro diretores do clube, era um “Majestoso” e os corintianos ilhavam os raros são-paulinos presentes ao estádio. O Corinthians fez 1, fez 2 a 0. Todos olhavam para o padre e gritavam: urubu, urubu!

Veio o segundo tempo. O São Paulo faz o primeiro, faz o segundo, vira para 3×2 antologicamente. Monsenhor Bastos apenas fita os adversários e sorri. Então o cercam e passam a gritar que homem de saia não sabia vibrar.

Nesse momento, descendo ferozmente três degraus, um sujeito atarracado encara os atrevidos e parte-lhes a cara gerando uma confusão só contida a muito custo e horas depois pela polícia.

Depois do entrevero soube-se quem era o herói que defendera o religioso: era Kid Jofre, um lutador de boxe recém chegado ao país e pai de uma criança de nome Éder, que no futuro seria o nosso imortal “galinho de ouro”, campeão mundial de boxe.

Monsenhor Bastos era um são-paulino inigualável.

Para ele, torcer para o São Paulo era um ato semelhante ao ato de orar. Seu espírito se enlevava ao ver o clube das três cores em campo. Monsenhor Bastos era um devoto do São Paulo FC.

O grande Benedito Ruy Barbosa, esse gênio de nossa dramaturgia, conta que uma vez assistiu a um jogo ao lado de nosso personagem iluminado.

Conta Ruy que Monsenhor Bastos assistia à partida impassível sob a ótica dos demais, mas cochichando desesperado aos seus ouvidos.

O padre estava revoltado com uma derrota, o time jogava muito mal, um certo atleta estava parado, morto em campo.

Ruy, sangue quente, passou a xingar o time, pedia raça, aos brados, mas educadamente, afinal estava ao lado do padre… Então Monsenhor Bastos sussurrou em seus ouvidos:-“xingue o fulano, vamos, xingue, mas xingue com palavrões, você pode, eu não posso!

E Ruy desfiou um rosário de palavrões vociferando contra o atacante desinteressado, com a aprovação silenciosa de Monsenhor Bastos.

O padre, depois dos berros e dos impropérios, sorrateiramente disse-lhe, à boca bem pequena:- “é assim que se faz, meu filho”!

Monsenhor Francisco Bastos era fanático pelo tricolor.
O São Paulo não tinha onde treinar, no início não tínhamos campo, já o disse.

O São Paulo não tinha onde concentrar seus jogadores, às vésperas dos jogos era preciso localizar, na noite boêmia, os atletas que jogariam no dia seguinte. Não era fácil.

Numa certa reunião da diretoria, num porão da Praça Carlos Gomes, no centro da cidade, onde só havia três ou quatro cadeiras nas quais os diretores se revezavam para sentar, colocou-se em pauta o delicado assunto.

Era preciso que se destacasse alguém para localizar os craques nas noites anteriores aos jogos, alguém que os aconselhasse a irem dormir; jogar insone estava se tornando um hábito para os nossos meninos.

Monsenhor Bastos tomou a palavra e sugeriu algo que assombrou os presentes: a partir da semana seguinte levaria os atletas para se concentrarem na igreja. Sim, a igreja da Consolação iria transformar-se em concentração do São Paulo!

E assim foi feito.

Monsenhor Bastos então substituiu o pai de cada qual e de todos os jogadores do São Paulo. Decretou horário para o recolhimento, à certa hora todos deveriam se apresentar na igreja, ali ele os alojava, na torre, no terceiro andar.

O bairro da Consolação era o bairro da boêmia, até hoje o é. Como impedir os jogadores de sair para fruir os prazeres da juventude?

Monsenhor Bastos passava a tranca nos aposentos, divididos em tabique de madeira, pular do terceiro andar quem poderia?

No pátio da igreja, local reservado para os raros embates das inocentes partidas de basquete dos congregados marianos, os craques passaram a se exercitar, era lá que eles batiam bola, Monsenhor Bastos trouxera para aquele sítio sagrado da religião a sagrada chama de sua paixão mundana, o futebol.

Assim foi a vida desse homem de fé que se apaixonou perdidamente pelo clube da fé.

Nenhum jogador do São Paulo batizou um filho ou se casou durante o período em que Monsenhor Bastos fez parte da diretoria sem que ele próprio celebrasse o batismo ou o casamento.

Muitos craques viram seus filhos receberem na pia batismal uma recomendação para que se tornassem tricolores, quase todos os jogadores do São Paulo se casaram ouvindo as palavras doces do padre são-paulino.

Dino Sani, “Il Signore Sani”, um dos monstros sagrados de nossa façanha histórica, conta que foi Monsenhor Bastos quem celebrou seu casamento.

Era uma sexta-feira. O São Paulo só jogaria no domingo e contra um time pequeno pelo campeonato paulista.

Monsenhor Bastos, ao benzer as alianças dos noivos foi ao ouvido de Dino e decretou baixinho: – “só se consuma o casamento se o senhor se comprometer, em nome de Deus, a jogar domingo”! Dino respondeu:- “jogarei, em nome de Deus”!

E assim o casamento se consumou. E o São Paulo venceu o jogo, com um gol do recém-casado.

Muito há a falar sobre a trajetória desse incrível personagem, desconhecido por muitos, ignorado talvez pela maioria dos são-paulinos.

Não vou me alongar, meus iguais. Só um compêndio de vários tomos descreveria a dedicação desse homem pelas nossas cores.

Enquanto viveu, Monsenhor Bastos integrou a diretoria do São Paulo, tendo sido, inclusive, presidente do Conselho Deliberativo do clube.

Um dia um repórter abelhudo e torcedor assumido de um clube rival quis colocar publicamente o afável Monsenhor Bastos em situação delicada perante seus fiéis. Perguntou-lhe se ele amava mais o São Paulo do que a Deus.

Monsenhor Bastos, serenamente, respondeu-lhe que amava Deus e o São Paulo; para ele era Deus no céu e o São Paulo na terra.

Os anjos disseram amém.

Descanse em paz, Monsenhor Bastos.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.
www.@yahoo.com.br
catta_preta on twitter

Canhoteiro

O MAIOR PONTA QUE O MUNDO VIU

Quando aos 24/09/32 Deus enviou ao mundo José Ribamar de Oliveira, deu-lhe uma missão: encantar os semelhantes.

Ribamar nasceu em Coroatá, no Maranhão, Coroatá não sabia do projeto espiritual traçado pelo Criador para Ribamar, afinal no estado do Maranhão nascem Ribamares de três em três dias e todos são muito iguais, quase sempre trabalhadores humildes que no máximo acabam migrando para o sul para ajudar a erguer os arranha-céus do Brasil que a maioria do Brasil sequer conhece.

Aquele Ribamar não era um Adônis, não seria pela beleza física que iria se destacar. Nosso Ribamar foi à escola, mas não gostava de estudar; também não era pelo trato das letras ou pelo conhecimento das ciências que se avantajaria aos demais. Ribamar faltava às aulas para jogar futebol com os amigos. Nas peladas dos campos de várzea e dos campinhos das esquinas de Coroatá Ribamar começou a cumprir as ordens de Deus.

No par ou ímpar os meninos escolhiam seus times, já viram iguais, como se formam os times no par ou ímpar? Se juntam 10, 12 amigos para jogar uma pelada. Os líderes tiram par ou ímpar e quem ganhar começa a escolher os companheiros e assim vai, cada qual escolhe o seu, até se dividirem os jogadores entre um e outro time.

No tempo da infância de Ribamar ganhava o jogo quem ganhasse o par ou ímpar. Quem ganhasse o par ou ímpar escolhia logo o “Canhoteiro”, esse era o apelido do menino Ribamar, um canhoto que a bola amava de paixão. Era ter o Canhoteiro no time e vencer, simples assim.

Pudera. Canhoteiro desde que acordava, pela manhã, dedicava seus pensamentos à bola. Sentava-se à beira da cama e com o pé esquerdo levantava o chinelo trazendo-o até a mão como se fosse um malabarista. Imaginava que o chinelo fosse uma bola. Depois do almoço, Canhoteiro, cuja família só tinha três laranjas para a sobremesa, não saboreava a sua, levava-a consigo com a desculpa de chupá-la na rua. Uma vez livre dos olhares dos pais usava a laranja para fazer embaixadinhas, fazia mil, duas mil embaixadinhas com a laranja pelos caminhos e ruelas de Coroatá…

Coroatá não tinha time profissional. Aos dezesseis anos, Canhoteiro causava espanto aos moradores da cidadezinha, enfileirava às vezes sete, oito adversários driblando com uma habilidade que parecia ter aprendido em outro mundo. A fama do moleque correu pelo Maranhão, tanto proclamaram as suas façanhas que um olheiro do América, de Fortaleza, veio vê-lo jogar na várzea.

O olheiro podia até ser cego, mesmo que o fosse se encantaria com o alarido do povo, com os assobios, com as risadas de prazer, com os berros que todos davam, extasiados com a arte do menino.
Os pais de Canhoteiro não acreditaram quando viram o filho levado pelo representante do time americano, Canhoteiro iria jogar em Fortaleza, seria profissional, aquele Ribamar seria o orgulho da humilde família Oliveira.

Canhoteiro chegou a Fortaleza e causou arrebatamento. Puseram o menino depois do primeiro treino para jogar em uma preliminar e ele driblou o marcador tantas e tantas vezes que o coitado perdeu a calma e foi expulso. O substituto foi humilhado, não achava a bola escondida com Canhoteiro; bateu, bateu e foi expulso também.
A fama de Canhoteiro iria se alastrar. Canhoteiro, uma criança, firmou-se no time principal, era a alegria de Fortaleza, os cearenses só falavam nele.

Em 1954 o São Paulo estava reformulando seu time. Depois da vitoriosíssima década de 40, os anos 50 eram de mudança de safra. Leônidas, o “diamante” já havia parado, Sastre já se fora, o infindável Teixeirinha encerrara a carreira, era preciso renovar. Um diretor foi veranear em Fortaleza. Em cada praia que visitava ouvia maravilhas sobre o canhoteiro Ribamar. Foi vê-lo atuar.

Imediatamente entrou em contato com o presidente Cícero Pompeu de Toledo, quase não podia conter as lágrimas ao descrever o que vira ao principal mandatário tricolor.

Cícero, à distância e embora incrédulo, orientou-lhe no sentido de que fizesse uma proposta ao América para trazer o jogador. Assim foi feito. A viagem do diretor se transformou em trabalho, prolongou-se, era uma questão de convicção contratar o malabarista da bola, o ponta que iria mudar a cara do futebol paulista.

Então Canhoteiro chegou. Ninguém deu nada por ele no primeiro treino. A imprensa nunca ouvira falar de Canhoteiro. Canhoteiro, no final do coletivo, foi chamado por Jim Lopes, o técnico sãopaulino, para integrar o time reserva. De Sordi, o lateral titular nunca mais veria coisa semelhante. O canhoteiro Ribamar driblo-o tanto que De Sordi, um consagrado craque teve um ataque de riso!

De Sordi ria, mas não ria sozinho, todo o elenco ria, Jim Lopes ria, era um verdadeiro espetáculo circense ver Canhoteiro driblar!

Aos 18/04/54 Canhoteiro, depois de assombrar nos treinos, foi colocado no time principal do São Paulo em um amistoso na cidade de Lins. Nunca mais saiu.

Canhoteiro era um gênio inigualável. Em Uberaba fizeram um torneio e convidaram, dentre outros, São Paulo e Fluminense. Canhoteiro deixou loucos os mineiros, na decisão, contra o Flu, Canhoteiro acabou com o jogo e ainda fez o gol do título; a carreira decolava aos olhos do Brasil.

Os estádios passaram a se encher, todos queriam ver o “mago”.
O Pacaembu delirava vendo Ribamar inventar dribles como se desse ordens à bola que colava aos seus pés. Canhoteiro era ponta, ponta legítimo. Decretaram, com esse futebol de volantes e de alas, o fim dos pontas. O ponta jogava do meio para a frente, colado à linha lateral. Lançado, ia para cima do lateral que o marcava e buscava chegar à linha de fundo para cruzar para o centroavante ou para o meia que fechavam em velocidade em busca da bola.

O duelo entre os pontas e os laterais eram homéricos. Imaginem, iguais, Djalma Santos marcando Canhoteiro e comecem a formar opinião sobre o que era o futebol.

Ribamar humilhou todos os laterais que ousaram pará-lo. Canhoteiro era tão bom que um dia a Gazeta Esportiva estampou na capa que ele era o “inventor do drible”. Garrincha, o gênio, só tinha um drible, ameaçava, com uma ginga marota, sair pela direita uma, duas, três vezes e não saía. Quando saía efetivamente o marcador ficava anestesiado, parado, e “seu Mané” ia para a linha de fundo. Garrincha era um monstro, mas era um ponta que só tinha esse drible repetitivo.

Canhoteiro era um inesgotável criador de dribles, ninguém sabia se ele iria driblar para dentro ou para fora, para a esquerda ou para a direita, se iria dar um chapéu, com a bola no chão, se iria, de repente, de costas, puxar a bola por cima do corpo e sair com ela quase que por dentro do adversário.

Em nove anos de São Paulo, Canhoteiro transformou o futebol em um circo ambulante, onde ele ia a multidão se tomava de alegria.

Canhoteiro apanhava a bola no meio campo e saía intermitentemente driblando o lateral. Dava-lhe um drible, avançava, dava-lhe outro drible, avançava mais; eram dribles curtos, um após o outro, de repente já estava junto à bandeira de escanteio. Ali ficava de costas para o marcador ressabiado , o que iria fazer Canhoteiro?
Então ele, num espaço exíguo, “espaço de um lenço”, diziam os antigos, ou dava um chapéu no pobre, ou girava o corpo para dentro e passava-lhe a bola entre as pernas seguindo para a grande área, onde punha Gino, ou outros, na cara do gol.

O Corinthians tinha um lateral chamado Idário. Idário era uma lenda corintiana, pela raça. Idário era a maior vítima de Canhoteiro. O lateral corintiano batia, era violento. Mas em Canhoteiro Idário não batia, porque não achava as pernas ligeiras do mago.

O Pacaembu viu, muitas vezes, Idário ser atirado ao fosso, enganado por aquele mágico, que amestrara e enamorara a bola.

Dino Sani, “Il Signore Sani”, o maior volante que o São Paulo teve, jogou muitos anos com Canhoteiro. Para ele nunca houve um jogador mais habilidoso e matreiro. Dino conta que Canhoteiro, no vestiário, antes e nos intervalos dos jogos, ouvia as preleções dos técnicos fazendo embaixadas com frutas, com caixas de fósforo e com moedas.
O imarcável Canhoteiro deveria ter sido titular absoluto na copa de 58, quando estava no auge da fama e da carreira, uma fuga da concentração para namorar mulheres de vida fácil ensejou seu corte. Imaginem Garrincha na direita e Canhoteiro na esquerda!

Seria um exagero, iguais, Deus não permitiu.

Canhoteiro, assim com Mané Garrincha, era simples, humilde, para ele, jogar bola era uma grande diversão. Na decisão paulista de 1957, Canhoteiro foi o dono do jogo, todo o time do Corinthians se preocupava com ele, ele abriu o espaço para que outros pudessem brilhar e ganhamos por 3×1.

Ribamar não gostava de treinar, aquecia seu talento no álcool, adorava a noite, as brincadeiras e principalmente os amigos, que o levavam para a diversão nas madrugadas da paulicéia feérica.
Canhoteiro foi o primeiro jogador brasileiro a ter um fan clube. Reuniram-se muitos para celebrar seu nome, para segui-lo, aonde fosse.

Passaram-se os anos. Em 1963, quando fui ver meu primeiro jogo do São Paulo no Pacaembu, Canhoteiro despediu-se do tricolor.

Uma contusão no joelho o atormentava, mesmo assim foi jogar no México, muitos sombreros foram jogados ao alto para comemorar suas mágicas com a bola nos pés, tequilas foram consumidas à rodo pela atônita torcida mexicana e por ele, naturalmente.

Quando Canhoteiro se foi do Brasil os estádios brasileiros ficaram tristes. O México deve se orgulhar por ter sido a última pátria desse deus da bola.

Em 1974, numa noite chuvosa e fria, eu ouvia um noticiário da TV quando o apresentador anunciou a morte de José Ribamar de Oliveira, prematuramente, aos 42 anos. Poucos sabiam de quem se tratava. Eu derramei muitas lágrimas, os são paulinos da velha guarda certamente choraram muito. O mago fora chamado por Deus para alegrar o paraíso, ele não era da terra.

Nunca mais se veria a bola ser tratada com tanta intimidade, nenhum zagueiro cairia mais nos fossos, o drible no espaço de um lenço jamais seria aplicado, o fan clube do ídolo se dissolveu.

Coroatá, terra natal de Canhoteiro, continua e continuará a trazer à luz, de três em três dias, muitos Ribamares; todo o Maranhão, afinal, produz e produzirá sempre muitos Ribamares, é uma produção em série.
Nenhum Ribamar de Coroatá ou do estado do Maranhão, no entanto, será igual àquele Ribamar vindo à luz em 1932, o Ribamar canhoteiro, o Ribamar gênio da bola, o Ribamar mago, o astuto Ribamar, o inventor do drible, o maior ponta que o mundo viu.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são paulino.

antoniocattapreta@yahoo.combr

catta_preta on twitter

Rogério Ceni segurando Bandeira

O Brasileirão, em 2009, abrirá o segundo turno de forma emocionante.

Jogos importantes, partidas equilibradas pelo título e contra o rebaixamento.

Para estar dentro do G4 e fora dos 4 últimos colocados.

Porém, para o são-paulino, é noite de razão e emoção.

Nenhuma torcida terá maior orgulho de estar presente ao estádio que a nação tricolor, na noite de quarta-feira.

Noite de quarta-feira que faz lembrar Libertadores, que faz lembrar de heróis tricolores.

Dentre eles, Rogério Ceni, que estará de volta ao seu lugar, o de Capitão do SPFC, após sua traumática fratura.

E mais uma vez, espetacular superação de limites. Contou com a força do Reffis, com a vocação obstinada de outro alicerce tricolor, que gosta de permanecer alheio aos holofotes, o mestre da fisioterapia, Dr. Rosan. Ele e os demais valorosos profissionais do Reffis e do departamento médico do SPFC, merecem o total agradecimento.

Daquele goleiro que ainda tão jovem, vestia a camisa do SPFC e se tornou campeão da Taça Conmebol, em 1994, desbancando junto do Expressinho Tricolor, rivais de tradição. O primeiro título como titular de uma história que havia começado no Tricolor, em 1990, dia 07 de setembro, independência do Brasil.

Surgia ali um talento promissor.

De talento, ao maior líder em campo dos últimos 20 anos, quem sabe, da história do Mais Querido, nos gramados.

O bastião guerreiro da época das vacas magras, sofrida para o são-paulino, entre 1995 e 2005. Mas Rogério lutou com o SPFC, que reformava o Morumbi, que havia perdido o tempo áureo de Telê.

Jamais esmoreceu nesse período, ganhou sim títulos, derrotou o rival Corinthians no retorno de Raí em 1998, impediu que o Santos saísse da fila em 2000, com golaço de craque, uma de muitas das suas faltas memoráveis. O primeiro, marcado em Araras, contra o União São João, em 1997.

E já são 83 gols, do recordista mundial, do goleiro-artilheiro, Rogério Ceni!

Viu ser revelado para o mundo o menino Kaka, em 2001, na conquista do Rio-SP.

Mas os maiores desafios estavam por vir.

“Para conquistar o mundo, é preciso atravessá-lo”, diz o bandeirão tricolor.

O homem dos “limites ilimitados” sabia disso. E foi atrás do desafio, da saga.

A reconquista da vaga na Libertadores, em 2003.

O drama vivido em 2004, mas ao mesmo tempo, o inesquecível duelo com o Rosario Central.

A maturidade, o ápice estava chegando.

2005. Campeão paulista, herói da Libertadores, gigante do Mundial.

O goleiro-artilheiro se tornara o maior goleiro do mundo.

Não se deu por satisfeito. Era o tempo de buscar a SOBERANIA do Brasil, junto do SPFC.

Tri-Hexa.

Eis a história de um mito, que só o são-paulino pôde vivê-la e contará aos seus filhos e netos.

O legado de Rogério Ceni.

Bom retorno, Capitão! A nação tricolor te espera e o reverencia!

OH O CAPITÃO VOLTOU…

Por Carlos Port

Antônio Sastre

DON ANTÔNIO SASTRE

O futebol teve meias. Foi no tempo da minha infância, da minha juventude. Meu pai viu os meias, meus avós viram, a geração de hoje não sabe da existência dos meias. Meias armadores e meias avançados.

Os meias armadores pensavam o jogo, eram os intelectuais do time. Os meias avançados se chamavam pontas de lança, vinham de trás, chegavam de trás, para atordoar as defesas. Os meias, armadores ou pontas de lança, eram os maiorais, de qualquer time.

Pense bem, igual: Didi foi meia, Ademir da Guia foi meia, Gérson foi meia, Zizinho foi meia, Pedro Rocha foi meia, Leivinha foi meia, Pelé foi meia.

Para ser meia era preciso ser craque. Um time sem grandes meias estava morto.
Hoje não temos mais meias, hoje tudo no futebol é correria, tudo é meia, meia boca.

Quando no dia 12/05/44 o São Paulo conseguiu trazer para São Paulo o jogador Antônio Sastre, os adversários ficaram atordoados. Sastre era o maior meia avançado do mundo, era o capitão da seleção argentina, não havia televisão direta, Sastre era uma uma lenda, tudo era noticiado pelo rádio, o que se sabia de Antônio Sastre era que ele era um fenômeno.

O São Paulo havia trazido Leônidas, o “diamante negro”, dois anos antes, Leônidas viera desacreditado e fizera seus detratores engolirem as críticas, já tínhamos Remo, armador vindo do Santos, tínhamos Bauer, tínhamos Ruy, Noronha era nosso, tínhamos um time quase completo, só faltava um meia avançado para que tomássemos conta de tudo, iríamos mostrar ao Brasil que o São Paulo era o maior. Havíamos ganho nosso primeiro título em 43, tudo era entusiasmo, o novo São Paulo empolgava.

Mas, torciam contra nós. Corintianos e palmeirenses desdenhavam a nossa aparição triunfal. A rivalidade surpreendente deixou o presidente são-paulino Décio Pedroso louco. Contratar Sastre? Sim, contratar Sastre!

Imaginem, iguais, já tínhamos o que tínhamos depois das loucuras de 42, já tínhamos o “diamante” e, de repente, teríamos também Sastre,“ el maestro”, o maior craque da América?

Um periodista argentino, de nome Carlito de La Braga, estando em São Paulo, em veraneio, cochichou a Décio Pedroso, o presidente visionário são-paulino, que Sastre admirava o Brasil e o futebol brasileiro, que Sastre cairia como uma luva naquele esquadrão que se desenhava. Décio, o sonhador, perdeu o juízo. Ter Sastre ao lado de Leônidas era como ter Buda ao lado de Cristo!

Então tudo foi feito, pontificou a lábia de Décio, o embaixador brasileiro na Argentina era são-paulino, Guimarães Bastos (esse era o nome do embaixador) interveio, ajudou; e o Independiente, a peso de ouro, liberou seu astro, o “maestro” veio. A cidade de São Paulo parou, de novo. Já havia parado com a chegada de Leônidas. O São Paulo revolucionava o mundo do futebol.

Sastre tinha 31 anos. Para os adversários, a idade de Sastre era o mote para que se dissesse que ele não daria certo. Os adversários inventavam desculpas, Sastre era um fantasma, eles estavam tremendo.

15/03/43: Sastre assinou seu contrato com o tricolor. O campeonato paulista estava prestes a começar.
Sastre estreou nas Laranjeiras, contra o fluminense, em um amistoso, havia chegado de madrugada, o São Paulo perdeu, 3×1.

No domingo seguinte começava o Campeonato Paulista e logo com um “Majestoso”!
Sastre, absolutamente desambientado, jogou ao lado de Leônidas, mas o São Paulo perdeu por 2×1. A imprensa, que não nos respeitava, proclamou, com letras garrafais: deSastre!

Os contrários arrumaram um jeito de nos humilhar. Aquele “velho” de 31 anos era um deSastre! Nosso técnico era Conrado Ross. Conrado teve calma, apresentou a Sastre a cidade, fê-lo ver o que era o São Paulo FC e depois o escalou de novo, uma vez mais ao lado de Leônidas.

Então, no Pacaembu, o tricolor enfrentou o Santos: 6×1! Depois vieram os outros, o Fluminense, em novo amistoso, levou 3×0, a Portuguesa Santista tomou 8×1, o Vasco, com seu “expresso”, levou 3×1. Nunca mais ninguém parou o “maestro” Sastre.

Sastre, para a língua espanhola, significa alfaiate. Sastre foi o alfaiate da triste roupagem do destino dos nossos adversários durante o tempo em que esteve no São Paulo. Quando o São Paulo venceu a Portuguesa Santista por 9×0, naquele começo de campeonato Paulista do ano de 43, no Pacaembu, a paulicéia entrou em transe: Sastre deu um show, fêz 6 gols!

Sastre, Don Antônio Sastre, era um mestre extraordinário. Vamos ganhar? Depende do maestro, diziam os torcedores.
Sastre era demais, era um gênio.

Sastre gostava de fazer gols no fim dos jogos.Quando faltava um minuto, se dependesse de um gol a torcida rezava: marcai por nós, Sastre! Uma vez perdíamos do Corinthians por 1×0. Sastre não estava acostumado a perder do Corinthians, depois daquela estréia nunca mais perdera deles, guardava no coração a história do “deSastre” já os goleara por 4×0 duas vezes já os arrebentara, mas não se saciava.

Havíamos vencido o Jabaquara por 12×1, sim 12×1, ninguém podia com aquele time de Leônidas, de Remo, de Bauer e de Sastre. Os contrários não se conformavam. Sastre derrubava o Palmeiras, implodia a Portuguesa, o Santos ruía a seus pés.

Veio outro “majestoso”, São Paulo x Corinthians. Sastre tinha mística predileção pelos “majestosos”.
Em 1946 diziam que o São Paulo já não podia mais ganhar dos antigos, era demais para um time que surgira do nada. E aquele “deSastre”, que tanto os humilhava?

O Corinthians fez 1, fêz 2 no primeiro tempo, 2×0 no primeiro tempo!
Queriam golear, iriam mostrar que o São Paulo jamais se ombrearia com os grandes, o jogo era deles!

Então Remo fez o nosso primeiro, Teixeirinha empatou e a um minuto do fim; quando eles se lançaram como loucos ao ataque, Don Antônio Sastre recebeu uma bola rebatida da defesa, no meio campo onde estava, partiu para frente com a elegância que o caracterizava, cabeça erguida, como uma flecha; Sastre driblou um, dois, três, quatro, ficou frente a frente com o goleiro Bino, deu-lhe um drible estonteante e foi, com a bola e tudo, fazer o mais lindo gol que o Pacaembu já viu.

Acho que essa foi a maior virada que o São Paulo conseguiu contra esse temível rival.
Sastre amava jogar contra o Corinthians, detestava perder do Corinthians, sua estréia no Pacaembu o marcara para sempre.

Sastre, o cerebral craque, manteve-se no São Paulo até 1946. Sastre não respeitava nossos rivais, gostava de implodir alvi-negros e alvi-verdes. Antônio Sastre só foi embora quando achou que não podia mais jogar, por causa da idade.

“El maestro”, se despediu num amistoso contra o River Plate, no Pacaembu, em 15/12/46.
Nenhum são-paulino se esquecerá desse dia. Quem viu, viu, teve o coração apertado, chorou; quem não viu, não viu, que chore agora, “el maestro” faleceu em Buenos Aires, em 23/11/87. Sobre o caixão do gênio, colocaram uma bandeira do São Paulo FC.

Ave, Sastre!

Próxima Página »