Convidados


Prêmio Craque JFC: São Paulo

O Jornalismo Futebol Clube, em parceria com o Blog do Marcello Lima, inaugura um novo espaço para o torcedor, com premiações eventuais para os visitantes, que buscam as informações e notícias que a imprensa tradicional não publica.

E para começar estamos contemplando o torcedor do São Paulo com o livro “Tricolor Celeste”, de Luiz Augusto Simon.

O exemplar tem o autógrafo do autor e também de um dos maiores ícones da história do São Paulo Futebol Clube, Don Dario Pereyra.

Crie uma frase usando as palavras: São Paulo, 2010, Libertadores, Uruguai.

Envie sua frase juntamente com seu nome completo, idade, endereço e telefone para contato com DDD, para o email do site: jornalismofc@hotmail.com

Só serão aceitas as respostas que cumprirem integralmente com os dados solicitados acima.

A melhor frase será premiada com o livro.

As respostas devem ser enviadas até o final do dia 17/12/2009. O vencedor será divulgado no dia 20/12/2009.

Em breve os torcedores de Santos, Palmeiras e Corinthians também serão contemplados.

Jornalismo Futebol Clube: um novo jeito de fazer jornalismo esportivo.

http://jornalismofc.wordpress.com/

O “CANHOTINHA DE OURO”

O Futebol tem expressões próprias.

Ponta, ala, volante, zagueiro, atacante, meia. Meia?

Meia, hoje, só se for para usar no pé!

No meu tempo havia meias. Meia-direita e meia-esquerda. Um jogador, entre os cinco da linha, não importa se fosse o meia-direita ou o meia-esquerda, era o meia ponta de lança, o homem que fazia o papel de companheiro do centro-avante, o homem que vinha de trás para ajudar o centro-avante entrando na área e o outro jogador dentre os cinco avançados era o meia-armador,o pensador do time, o cérebro, o armador das jogadas, o homem a quem se atribuía a missão de municiar os demais atacantes.

Normalmente os meias-armadores eram os camisas 10 dos times, exceção feita a Pelé que imortalizou a 10 como ponta de lança no Santos FC. Ademir da Guia era meia armador e usava a camisa 10 do Palmeiras, Dirceu Lopes era armador e usava a10 do Cruzeiro, Rivellino era o meia armador do Corinthians e envergava a 10. Ser meia armador e vestir camisa 10 era ser o maior jogador do elenco de um clube. De qualquer elenco, bom ou ruim.

Às vezes o meia armador ocupava o lado direito da intermediária para a frente em sua equipe, às vezes ocupava o lado esquerdo. Quase todos os meias armadores da minha época eram craques, de tirar o chapéu. Vou logo ao assunto, meus iguais. Eu quero falar sobre o maior meia-armador que vi jogar.

Gerson de Oliveira Nunes nasceu em Niterói-RJ, em 11/01/41. Apareceu no futebol muito jovem, jogando pelo Flamengo e transferiu-se mais tarde para o Botafogo onde fez história. Nos tempos da minha infância e parte de minha mocidade, anos de pedra da construção de nosso templo, o Morumbi, eu vivia fascinado pela arte e pela classe que tinham os nossos grandes meias armadores.

Um dos maiores prazeres da minha vida de torcedor de futebol foi ver Gerson jogar, ele foi o paradigma dos meias armadores. No final do ano de 1969, quando eu ouvi pelo Rádio, que Gerson estava contratado pelo São Paulo, não acreditei.

Cr$ 900.000, (novecentos mil cruzeiros) foi o preço astronômico que o São Paulo pagou para trazer Gerson, Gerson era um fora de série, era um monstro, ter Gerson no São Paulo parecia mentira. Em 1968 o Botafogo ganhara seu mais brilhante título carioca, era um time de astros, tinha Jairzinho, tinha Paulo Cezar, tinha Manga, tinha Roberto, mas a sua maior estrela era Gerson.

Gerson estava no apogeu da carreira. Depois do fracasso da Copa de 1966, o meia botafoguense estava enchendo as medidas. Gerson se transformara na maior personalidade do ambiente futebolístico carioca. Às vésperas da Copa do Mundo de 1970 e depois de assistirmos a um show de Gerson no campeonato do Rio de Janeiro, eis que o São Paulo anuncia que o contratara, o São Paulo contratara nada mais nada menos do que Gerson, o “canhotinha de ouro”!

Eu, e tantos outros são-paulinos, ficamos atônitos. Acabaria o nosso sofrimento de 13 anos? Teria, enfim, cessado a política do sovinismo em prol da construção do patrimônio?

Sim, teria. Laudo abrira a carteira!

A chegada de Gerson foi memorável, foi algo indizível, o São Paulo tem dessas coisas, o São Paulo faz o destino!
Quando Gerson chegou ao Morumbi tínhamos um elenco cabisbaixo desde 1957, era um elenco acostumado a participar apenas. Gerson mudou a cara do São Paulo. Logo na apresentação, o gênio, perguntado a que viera, disse que vinha antes de ser tri-campeão do mundo pela seleção brasileira e para resgatar a saga de glórias do São Paulo FC. Gerson, diante de um batalhão de repórteres, afirmou com toda a convicção:- “Vim para ganhar todos os títulos que disputar!”

Gerson representou para o São Paulo, nos anos 70, o que representaram Leônidas e Sastre nos anos 40, Gerson devolveu ao São Paulo a auto-estima perdida, Gerson, desde que chegou ao São Paulo, virou o dono do Morumbi.

Vi todas as partidas de Gerson pelo São Paulo. Sério, meus iguais, vi todas. Gerson hoje é uma lenda, é um mito na história do São Paulo. Mas eu não falo do mito, não me refiro à lenda; os prodígios dos mitos e das lendas quase sempre são exageros da imaginação de quem não os viu.

Eu vi, com meus olhos que a terra haverá de consumir, Gerson transformar o São Paulo no início dos 70, em um esquadrão igual ao dos anos 40!

Ah, meus iguais, que carisma tinha o Gerson, como jogava o Gerson!

Fui à estréia dele no Morumbi, em setembro de 1969, ele nem havia treinado direito e o São Paulo perdeu por 5×2 do Atlético Mineiro. Os dois gols do São Paulo foram dele, claro.
Tanto bastou para a mídia urubuzar a contratação, Gerson sozinho nada significava. E mais: ele só jogava no Rio, disseram os bairristas e anti-são-paulinos. Já viram, iguais, como há anti-são-paulinos? Sempre foi assim.
Então, Gerson, com a sua personalidade única e com o seu futebol deslumbrante, devolveu ao São Paulo a sua identidade vencedora. Ele disse:- “Vou ganhar a copa e volto para fazer o São Paulo campeão”!

Gerson, naquela ocasião, já jogador do São Paulo FC, foi para a Copa do Mundo de 70, a mais emblemática das Copas, para comandar o time brasileiro no México. Nem Pelé, o extra-terrestre, foi maior do que Gerson na Copa de 70. Os velhos são-paulinos, vendo o show de Gerson naquela Copa, voltaram a achar que podiam legar aos seus sucessores as tradições do “Clube da Fé”, os moços recobraram os ânimos, os indecisos decidiram optar pela camisa das três cores.

A campanha do São Paulo em1970 foi maravilhosa. Depois de 13 anos, finalmente mais um título paulista! Gerson, voltando consagrado da Copa, só não fez chover. Dava gosto vê-lo em ação. Gerson era um homem de pequena estatura, não entrava na área do adversário, o domínio de Gerson era delimitado entre a intermediária do seu time e a intermediária defensiva do seu adversário.

O território de Gerson estendia-se, desde a saída de sua grande área, até a entrada da grande área do inimigo. Nesse espaço, Gerson tinha domínio completo, absoluto. Essa região do campo de jogo tinha um comandante: Gerson, o “canhotinha de ouro”.

Ele já era chamado de “canhotinha de ouro” quando veio para o São Paulo. Gerson veio ao São Paulo aos 29 anos, naquele tempo, aos 29 anos, um esportista já estava no ocaso da carreira. Desde que começou a jogar, ainda menino, Gerson não tocava na bola com o pé direito.

Quando se apresentava no jogo uma ocasião em que ele tinha que chutar com o pé direito, Gerson fazia algo jamais visto. Ele girava, como um pião, com a bola para trás, até levá-la ao pé esquerdo e já com a ferramenta ideal dava um lançamento de 40, 50 metros.

Gerson não cabeceava uma bola. Nunca vi o Gerson cabecear uma bola. “Bola foi feita para chutar”, disse ele um dia, em uma entrevista.

Gerson batia faltas e pênaltis, como ninguém. Imaginem Didi, o “folha seca”, imaginem Rogério Ceni; era mais ou menos assim que Gerson cobrava faltas e pênaltis.

No início dos anos 70, Gerson comandava o São Paulo FC. Eu ia ao estádio para ver Gerson, imagino que muitos iguais me imitavam. Mais que ir aos estádios, eu ia aos treinos no Morumbi, para ver Gerson!
Gerson era um matemático da bola, um jogador preciso. Ele não errava um passe. Gerson era uma extensão do curso da bola, ele tinha o poder de fazer o jogo fluir. Nunca vi o Gerson errar um passe. Com aquela postura dele, parecia um corcunda, ele protagonizava uma performance inédita, punha dona bola onde queria. Dona bola o amava, tenho certeza. Parecia tão leve aos pés dele! Gerson era o carteiro da bola, o seu pé esquerdo selava o destino da pelota, ele era certeiro, infalível!

Às vezes Gerson saia costurando pela intermediária adversária até chegar próximo da área. Dalí desferia uma bomba e estufava a rede. Foi assim na Capa de 1970, no jogo decisivo contra a Itália, lembram-se? Esse gol foi fundamental para a vitória, foi o gol da virada para 2 x 1, o Brasil saíra perdendo por 1 x 0.

Nos anos 70 eu estava cursando a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, estava apaixonado pelas Arcadas, mas o São Paulo sob o comando de Gerson, com perspectivavas de vencer alguma coisa, me deixava louco. Então eu ia até aos treinos no Morumbi!

Lá, eu e tantos outros apaixonados, sentíamos a liderança desse craque, desse Napoleão, que comandava o time, dentro e fora do campo. Era uma liderança que impressionava!

Gerson tinha um Camaro. O Camaro era o carro mais caro da época. Era um Camaro preto. Na frente do Morumbi, Gerson, encostado à porta de seu Camaro, concedia entrevistas para a imprensa e depois ficava a conversar com os torcedores.

Ali se falava de tudo, ali se resolvia tudo. Bons tempos. Gerson anunciava até a escalação do time!

Para se ter uma idéia, meus iguais, de quem tenha sido Gerson para o São Paulo, e para o Brasil nos anos 70, lembro que todos os maravilhosos meias da época se curvaram à majestade de nosso “canhotinha de ouro”. Na disputa entre ele, Ademir da Guia, Dirceu Lopes e Rivellino quem ganhou? Ele!

Quem foi o cérebro do Brasil na Copa de 1970? Dirceu e Ademir não pagaram placê, Rivellino foi para a ponta-esquerda e o meia-armador da copa das copas, foi Gerson. Pedro Rocha, “El Verdugo”, o 10 da seleção uruguaia, quando chegou ao São Paulo, em 1971, teve que vestir a 8, curvou-se, a 10 era do “canhotinha de ouro”!

Mais: Para que se observe a importância do são-paulino Gerson, naquele antológico 4º gol do Brasil contra a Itália na sempre lembrada Copa de1970, vê-se Pelé, bem ao lado direito do ataque quando serve Carlos Alberto que desfere um tiro letal sepultando o goleiro adversário. Pelé estava ocupando o lado direito do ataque brasileiro. Foi por esse lado que Pelé jogou a Copa inteira de 70. É que do lado esquerdo, posição original de Pelé, flutuava o “canhotinha de ouro”, naquele lado nem Pelé podia com Gerson…

Foi lindo ver Gerson chegar a São Paulo e resgatar os nossos sonhos tricolores, foi edificante ver o nosso herói, de muletas, invadir o “Brinco de Ouro” para comemorar o título de nosso ressurgimento em 70, Gerson havia quebrado a perna na penúltima batalha do título que ganháramos sob sua batuta, com sua raça e com sua classe inigualáveis.

Foi maravilhoso ver Gerson desbancar o “divino” e arrebentar o “garoto do Parque” enquanto esteve em São Paulo, foi impressionante ver Gerson se tornar, por dois anos, o dono do Morumbi, foi gratificante ver o “papagaio” chapelar a imprensa, enlevar a torcida e empolgar o futebol paulista!

Foi em São Paulo que Gerson virou comentarista esportivo. Toda São Paulo o admirava, aqui ele virou um bandeirante, um herói, a cidade de São Paulo aprendeu a amá-lo, ele se tornou um deus, acima de todas as paixões clubísticas.

Hoje, Gerson é comentarista da Rádio Globo. Logo pela manhã, sintonizado na Globo, ouvi, um dia desses, Gerson fazer uma declaração de amor pelo São Paulo FC, já ouvira dele manifestações no mesmo sentido. Ele ama o Bem Amado, assim como nós.

Gerson jogou dois anos no São Paulo FC. Só que, pelas circunstâncias, foram dois anos que valeram por mil!

Meias. Ah! Onde estão os meias? Meias armadores, meias pontas de lança…

Eu quero um meia armador!

Deus nos tem privilegiado com meias armadores dessa categoria ao longo da história. Tempo vai, tempo vem e aparece um, depois aparece outro e outro… São gênios! De Sastre a mestre Ziza, de mestre Ziza a Gerson.

Na história dos meias armadores são-paulinos, eu diria que Gerson foi o maior. Sastre era igual a Gerson mas chegou para comandar uma sinfônica em um time já montado que já tinha Ruy, Bauer, Noronha, Remo e Leônidas,
Zizinho era igual a Gerson e chegou para comandar uma escola de samba em um time quase pronto, que já tinha Mauro, Dino Sani, Maurinho e Canhoteiro e Gerson, nosso personagem, chegou para comandar um exército num time despersonalizado e a ser desenhado e que ainda não tinha ninguém, além do imortal Roberto Dias, em fim de carreira.

Ave, Gerson, nosso inesquecivel meia armador, nosso “canhotinha de ouro”!

Paz, meus iguais.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.

antoniocattapreta@yahoo.com.br

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moeda em pé

DR CATTA-PRETA

A MOEDA QUE CAIU EM PÉ
(Versão Verdadeira)

A epopéia são-paulina é rica e mística. Descobrir a história do maior clube da América é um prazer inigualável, contar a história desse gigante glorioso é mais que um prazer, é puro êxtase. O São Paulo FC tem história e pré-história, já o disse aquele que escreve estas linhas. Há mitos e lendas na pré-história do São Paulo e há lendas e mitos em sua história propriamente dita.

A saga tricolor tem início quando seu ancestral mais remoto, o Clube Athlético Paulistano, resiste ao profissionalismo no Futebol. Não era adequado aos lordes de nossa sociedade competir por dinheiro. Para os dirigentes do Paulistano, o Futebol era um mero esporte, como outro qualquer; jamais a Direção do clube da elite da capital paulista iria assalariar alguém para que vestisse a sua camisa sagrada. Para o Paulistano o que importava era competir, o resultado não interessava, pagar alguém para que se esforçasse pelos louros da vitória era sacrilégio!

O Paulistano disse não ao profissionalismo e alguns de seus sócios apaixonados pelo Futebol disseram não ao Paulistano. Houve uma pequena insurreição, os revoltosos queriam continuar a torcer, quem ama o Futebol não vive sem ele. O Paulistano era nesse esporte o maior vencedor de títulos de São Paulo. Para que se tenha uma idéia, desde a sua fundação havia sido campeão paulista em 1905, 1908, 1913, 1916, 1917, 1918, 1919 (único tetra do estado até hoje) 1921, 1926, 1927 e em 1929, ano em que tomou a resolução fatal. A solução de continuidade dessa rota exuberante de glórias era um crime lesa-futebol! Então os dissidentes ousaram fundar um sucessor para o Paulistano. Seria mantida a fleuma aristocrática do tradicional torcedor do clube dos Jardins, criar-se-ia um nome para a nova agremiação que evocasse a memória da cidade e do estado dos bandeirantes e as cores do Paulistano seriam conservadas.
Os revolucionários eram contados em pequeno número mas a sua valentia era de uma legião capaz de fazer guerra ao mundo. Entretanto tudo não passava de uma idéia. Não havia campo para treinar, não havia sede para administrar, não havia jogadores para jogar, não havia camisas para usar, não havia torcida para aplaudir. E o tempo era curto. A primeira providência foi convencer os próprios craques do Paulistano a irem jogar no novo clube. Que clube? O clube que os revolucionários iam criar.

Os inconformados bateram à porta da Associação Athlética das Palmeiras, esse clube existia, tinha tradição, mas era em verdade, naquela ocasião, um corpo sem alma. A A.A. das Palmeiras fora criada em 1.902, dois anos depois da criação do próprio C.A. Paulistano. Dedicava-se naqueles dias quase que exclusivamente ao Tênis e, quase que imperceptivelmente, ao Futebol. Mas tinha sede, tinha camisas, tinha quadras e tinha minguado número de associados. Sobretudo, tinha campo, era dona do campo da Floresta e esse campo, o melhor da época em São Paulo, era muito importante para a consumação daquele projeto onírico. A A.A. das Palmeiras estava endividada, corria o risco de perder tudo. Tinha jogadores de Futebol? Tinha. Mas eram fraquinhos, praticavam o esporte pelo esporte, sem nada de grande ou de excepcional almejar.

Ora, a tentação de ver os craques maravilhosos e campeoníssimos do CA Paulistano envergando aquelas camisetas já sem brilho e sem objetivos foi o móvel usado pelos rebeldes para convencer os comandantes daquele clube a integrar o sonho impossível. A perspectiva da glória também abre corações. Do encontro das agruras e dos sonhos comuns daqueles visionários fez-se a realidade e nasceu em 1930 o São Paulo da Floresta que ao vermelho e branco das cores do Paulistano adicionou o preto do alvinegro da A.A Palmeiras, dando vida às três cores da camisa que tanto amamos.
Com essa estrutura e com o manto que seria o mesmo para a eternidade, o São Paulo da Floresta disputou seu primeiro certame paulista em 1931 e com os ex-craques do Paulistano deu um verdadeiro show nos rivais sagrando-se campeão absoluto daquele ano, sob o comando de Arthur Friedenreich, o primeiro Pelé da história do Futebol. Estava apenas começando a epopéia.

A façanha do primeiro ano ainda guardava ares de amadorismo. Os jogadores quase nada recebiam, havia a vontade de mostrar ao Paulistano que o futebol profissional era viável, até os próprios torcedores do Paulistano apoiaram o início das atividades daquele clube que consideravam um filho. Mas a partir do ano seguinte tudo mudou. Os craques queriam ganhar mais, o clube precisava crescer, era preciso angariar fundos para gerir o sonho. Os torcedores do Paulistano abandonaram o time, o São Paulo da Floresta começou a fazer água.

Desesperados e acostumados com a vida aristocrática os dirigentes de então resolveram comprar uma sede nova, que chamasse a atenção da nobreza. Investiram no famoso “Trocadero”, um palacete no centro da cidade que adquiriram prometendo pagar 190 contos de réis, uma verdadeira fortuna. Para garantir o pagamento uniram-se em desespero ao Clube de Regatas Tietê mas não lograram êxito. Não deu. O sonho estava acabado, não foi possível pagar a dívida e ao São Paulo, em 1934, seria decretada a pena de morte.

O São Paulo morreria? Não, pelo contrário. Iria o destino anunciar a sua imortalidade com a dramática criação do atual São Paulo FC, no ano seguinte. Já contei alhures a história da refundação. De Carmo Mecca, o primeiro presidente depois do renascimento em 1935, passando por Porfírio, por Monsenhor Bastos e por tantos outros até chegarmos ao topo do mundo. Meus iguais conhecem muitas lendas da história e da pré-história daquele que seria depois proclamado o clube “Mais Querido da Cidade”.
São muitos os vultos que construíram a sagrada sãopaulinidade, forjada a ferro e a fogo, com suor, lágrimas e glórias eternas.

O São Paulo FC sofreu muito para se firmar no cenário esportivo paulista e para se transformar na maior potência da paisagem nacional da bola e das chuteiras.
Sabem todos que desde a refundação em 1935 ficamos longo período quase que à margem dos fatos, assistindo aos grandes, Palestra e Corinthians, colecionar títulos. Não éramos ninguém, éramos onze camisas e o sonho original, que não morria.

Durante esse período de humilhação muita história se colheu. O melhor da história é forjado sob as chamas do sofrimento. Manuel Raimundo Paes de Almeida fez história, Paulo Machado de Carvalho fez história, Cícero Pompeu de Toledo fez história assim com Laudo Natel, Roberto Gomes Pedrosa e tantos outros.
Quando Leônidas da Silva chegou, em 1942, o São Paulo proclamou ao Brasil que queria ser grande. Para acompanhar Leônidas, Décio Pacheco, o presidente de então, que também fez história, trouxe uma plêiade. O São Paulo transformou-se em um time de astros de primeira grandeza e foi enfrentar seus temíveis fantasmas no campeonato daquele ano. Mas perdeu.

Então os grandes, Corinthians e Palmeiras, ironizaram: pequenos não ganham títulos!
O São Paulo insistiu. Em 1943, montou quase que uma seleção.
A Federação Paulista de Futebol marcou a tradicional reunião dos clubes para a formatação do campeonato estadual. Estavam todos presentes, os representantes dos clubes do interior, os representantes dos clubes da capital, os diretores da própria FPF e a imprensa, em peso. As emissoras de Rádio transmitiam ao vivo, não havia Televisão.

Desde que eu era criança ouço essa passagem emblemática. Curioso é que cada um que a conta troca o personagem central. Já ouvi que o representante do São Paulo na célebre reunião era Paulo Machado de Carvalho, já ouvi que era Cícero, já ouvi que era Porfírio, me contaram que era Monsenhor Bastos, outros trazem a versão de que era o próprio presidente Décio Pacheco. Esse acontecimento virou lenda, esse episódio é um dos mais marcantes da história do São Paulo e da história do futebol paulista.
Eu não poderia deixar de repetir aos meus iguais esse “flash” legendário, esse verdadeiro versículo bíblico de nossas tradições, que deve ser obrigatoriamente passado de pai para filho entre os são-paulinos, até o final dos tempos.

Terminara a reunião na FPF, a reunião solene e concorrida a que eu me referi linhas atrás. A tabela estava pronta, o regulamento estava aprovado. Ia começar o grande campeonato paulista, o maior da história, segundo se apregoava. A imprensa foi convidada a entrar no salão nobre. Ali os dirigentes passaram a conceder intermináveis entrevistas. Os representantes de Palmeiras e de Corinthians não bastavam para tantos microfones e para tantas perguntas.

Quem entrasse hoje pelo túnel do tempo na solene sala de reuniões da FPF naquela noite festiva e inesquecível iria ver sentado impassivelmente em um canto, esquecido pelas luzes, um homem longilíneo, um senhor de olhos fundos, de ares fidalgos e de gestos nobres e discretos. Esse homem tinha mais de cinqüenta anos, tinha cinqüenta e um, para ser preciso. Fora aquele homem o primeiro paulistano a associar-se ao recém-fundado São Paulo FC, subscrevera a ata de criação do Clube da Fé, em 16/12/35. Além de sócio nº 1, nosso personagem fora presidente do clube, em 1936 e em 1937. O São Paulo o designara como seu representante para aquele ato.
Os repórteres pediram ao homem que se juntasse aos representantes de Corinthians e de Palmeiras para as entrevistas, ele se levantou e postou-se sem fazer alarde ao lado dos coirmãos.

Mais de quarenta minutos se passaram e as perguntas eram dirigidas apenas ao diretor palmeirense e ao enviado corintiano. Ambos trocaram todas as farpas possíveis e se desafiaram até não mais poder diante dos microfones. A questão era a de saber quem seria o campeão paulista de 1943. Corinthians ou Palmeiras?
O debate era renhido, encarniçado, o tempo passou e se esqueceram do nosso personagem são-paulino, a ele nenhuma pergunta era dirigida.

Os programas radiofônicos, transmitidos ao vivo, como se falou, estavam terminando, estava empatada a batalha entre os grandes, cada um alinhando motivos suficientes para concluir que o seu time seria o campeão.

Então, um repórter espirituoso, para terminar as hostilidades, sacramentou: -“Bem, senhores, não há como saber quem, entre Palmeiras e Corinthians, será o campeão paulista. Sugiro que resolvamos o impasse no jogo da moeda. Jogarei a moeda ao alto, se der cara, é porque ganhará o Corinthians, se der coroa é porque ganhará o Palmeiras”. Todos riram e saudaram aquela forma educada e sutil de acabar com a briga estabelecida. Mas antes de jogar a moeda e, lembrando-se do representante do São Paulo que ali estava e assistia a tudo com grande paciência, o repórter, para dar ensejo a que ele falasse pelo menos duas palavras perguntou-lhe: -“E o representante do São Paulo o que acha que vai acontecer? A moeda cairá com a face voltada para a cara ou para a coroa?”
E o nosso homem, com sua indefectível educação e com uma serenidade que fez corar os rivais briguentos respondeu sorridente: -“A moeda não cairá voltada para a face cara e tampouco cairá voltada para a face coroa, a moeda cairá pela primeira vez em pé e o campeão será o São Paulo FC!”

O homem a quem o ajuntador dessas modestas palavras se refere seria ainda o Presidente do Conselho Deliberativo Tricolor de 1946 a 1949, seria o Vice- Presidente do clube em 1954, em 1958 integraria a Comissão Pró-Estádio, criada para planejar a construção do Morumbi. De 1962 a 1972, ele seria eleito sucessivamente membro do Conselho Deliberativo. Até a sua morte, nosso personagem permaneceu a serviço do São Paulo FC, sua maior paixão.
Figura absolutamente inesquecível na vida do Tricolor ele recebeu o título honorífico de Presidente Benemérito do São Paulo FC.

Seu nome: Frederico Antonio Germano Menzen, mais conhecido apenas como Frederico Menzen, o homem que trouxe o goleiro King e o eterno treinador Vicente Feola para enriquecer nossas glórias.

Não é preciso dizer que no ano santo de 1943 o São Paulo conquistou o seu primeiro título paulista. A torcida então, em frenesi jamais visto, atravessou a cidade em imenso corso, que tinha como abre-alas uma descomunal moeda em pé, simbolizando a façanha.

Frederico Menzen se imortalizara. Havia protagonizado uma das mais místicas histórias do mundo da bola.

Ave, eterno são-paulino, Frederico Menzen!

Dr. Catta-Preta é advogado e são-paulino
antoniocattapreta@yahoo.com.br
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duas-caras

Vanderlei Luxemburgo reproduziu em seu blog o ótimo texto de Danuza Leão publicado na Folha de São Paulo para cutucar implicitamente Muricy Ramalho. Faço questão de reproduzi-lo aqui no blog, pois me identifiquei muito com o que diz a brilhante Danuza. Convivo com muitos falsos amigos, principalmente no ambiente profissional. Com certeza, você, meu amigo leitor, também já teve ou tem o desprazer de conviver com esta espécie tão comum no dia a dia.

DANUZA LEÃO
O pior inimigo é o falso amigo
Volta e meia faz comentário sobre você, maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar

Já que é inevitável ter inimigos, a coisa melhor do mundo é ter um de verdade: que te odeie com lealdade e sinceridade -sem nenhum fingimento.

Ele é capaz de falar mal de você em público sem ter, em momento algum, medo de que repitam o que ele disse. E também pode te dar um tiro ou uma facada, mas sem nunca te enganar -sempre numa boa.
Não é, positivamente, do tipo que diz “vou te contar uma coisa, mas não repita, fica só entre nós”.

Dele você pode esperar sempre o pior: que impeça que aquele negócio que estava planejando havia anos se realize, que diga àquela gata que está povoando seus sonhos que você é um cafajeste, que o dinheiro que você esbanja vem do tráfico de drogas -ou coisas ainda piores.

Sabendo do que ele é capaz, você pode sempre se defender -o que é mais fácil do que lidar com a hipocrisia.

Como guerra é guerra, nada que ele faça de ruim poderá surpreender -essa é a vantagem de ter um inimigo leal. Quando se encontram num restaurante, você já sabe que deve ficar alerta e se sentar de costas para a parede, como fazem os malandros.

Ele é capaz de seduzir sua filha menor, de contratar alguém para roubar seus documentos e de jurar sobre a Bíblia sagrada que viu você subornando um político.

Tudo faz parte, e quanto mais coisas ele fizer contra você, mais você aprende a se defender; como se aprende com um inimigo assim -ah, como se aprende.

Perigosos mesmo são os pseudo-amigos, aqueles que te tratam bem e que volta e meia fazem um comentário sobre você -maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar-, afinal, é apenas uma brincadeira, será que você perdeu o humor?

E aquele que passou anos construindo a imagem do bom caráter de carteirinha pode fazer você levar a vida inteira na dúvida, sem ter coragem de encarar a verdade: que se trata apenas de um crápula.

A tal da imagem ilude muita gente, que durante anos pensa que o personagem é defensor das boas causas, dos fracos e oprimidos, e sempre politicamente correto -faz parte do modelo, claro.

Incapaz de encarar uma briga de frente, ele não consegue nem ter inimigos, pois, como ser humano, não passa de uma fraude -e de um covarde.

Está sempre atrás de alguma vantagem -alguma pequena vantagem- e frequentemente comete traições -pequenas traições que dificilmente poderão ser comprovadas. E se alguém ousar acusá-lo de alguma coisa, sempre haverá alguém para defendê-lo -afinal, de uma pessoa com um passado tão correto, só um louco ousaria dizer alguma coisa.

Suas maldades e falhas de caráter nunca são grandiosas, porque nada nele é grandioso.

Suas maldades são pequenas, porque tudo o que ele faz é pequeno; pequeno como sua pessoa, como sua alma. Mas, às vezes, se tem que conviver com gente assim -como fazer?

Se for seu caso, não faça nenhum tipo de concessão.

Cometa um assassinato, internamente, e esqueça de que ele existe -mas esqueça mesmo. Mas atenção: é importante que ele saiba que você sabe perfeitamente quem ele é.

Fique cego quando passar por ele, e se alguém mencionar seu nome, não ouça; esqueça das mesquinharias de que é capaz um pobre ser humano.

E valorize seus inimigos, os bons. Eles estão sempre dispostos a liquidar com você, mas sempre com a maior lealdade.

danuza.leao@uol.com.br

Monsenhor Bastos

Cada clube tem um símbolo pelo qual é conhecido, às vezes é um bicho, às vezes é um dístico.

Todos têm um dístico, todos têm um símbolo. Há clubes que se destacam tanto pelo símbolo quanto pelo dístico.

O São Paulo é representado por um santo, o São Paulo é a encarnação futebolística do apóstolo Paulo e é também chamado de “O clube da Fé”.

O apóstolo Paulo é o nosso símbolo, “Clube da Fé” é o nosso dístico tradicional.

Acho que tanto nosso símbolo quanto nosso dístico explicam tudo quanto eu passo a relatar agora.

Quando o São Paulo foi refundado, em 16/12/35, já contei essa epopéia, éramos só onze camisas, uma bandeira e um grande sonho.

Não tínhamos campo, não tínhamos sede, não tínhamos torcida, não tínhamos jogadores.

Alguns admiradores do Clube Atlético Paulistano não se conformavam com a idéia de o clube parar de jogar futebol e então resolveram criar o São Paulo FC.

Dentre os pioneiros que sonharam o grande sonho de recolocar um time com o perfil da cidade em campo estava alguém muito especial, Francisco Bastos.

Francisco Bastos nascera em 11/09/1892, era um paulistano da gema.

Logo, o menino Francisco foi associado pelos pais ao Clube Atlético Paulistano, Francisco freqüentava o Paulistano desde a mais tenra idade, Francisco vibrava com o time de futebol do Paulistano, um time multi-campeão que tinha no ataque o implacável goleador Friedenreich, o Pelé dos tempos antigos. Francisco ia a todos os jogos do Paulistano.

Quando Francisco cresceu, a fé religiosa e cristã tomou conta de seu coração, o jovem resolveu abraçar o celibato clerical.

Então Francisco foi para o exterior e fez-se padre.

Quando o padre voltou ao Brasil, o Paulistano estava desistindo do futebol. Francisco não se conformava com a atitude de abandono do Paulistano, ele tinha um coração religioso e ao mesmo tempo esportista, Francisco então resolveu acompanhar os revoltosos sonhadores que fundaram o São Paulo FC.

Na ata original de fundação do São Paulo FC está estampada a assinatura do Cônego Francisco Bastos, décimo-primeiro subscritor daquela lista de são-paulinos históricos, que iriam, a longo prazo, mudar o cenário esportivo nacional.

Ao mesmo tempo em que ajudava a fundar o clube, Francisco Bastos foi ser o pároco da igreja da Consolação, no centro da cidade de São Paulo.

Francisco usava batina preta, naquele tempo padre tinha que usar batina preta; Francisco foi à reunião histórica de 16/12/35 vestindo a batina que lhe era imposta pelo clero.

Tudo era proibido aos padres. Tudo? Tudo não. Quase tudo. Ninguém, nem o papa, impedia um padre de ser são-paulino.

Francisco Bastos estava apaixonado pela idéia de fazer o São Paulo FC manter-se vivo.

Então, se tornou uma figura legendária da nossa história.

Monsenhor Bastos, como era conhecido, logo cativou os paroquianos da Consolação.

Pregava com sapiência, orava com dedicação, era caridoso, ajudava os fiéis, todas as missas rezadas por Monsenhor Bastos eram concorridas e não havia quem não admirasse aquele padre humilde, de voz suave, que exortava a bondade.

Mas hora de pregar era hora de pregar, hora de orar era hora de orar e hora de acompanhar o São Paulo era hora de acompanhar o São Paulo. E nessa hora Monsenhor Bastos se tornava um leão.

Conta-se que os hábitos dos domingos religiosos da capital mudaram enquanto Monsenhor Bastos esteve à frente de sua paróquia.

A missa das 18:00 hs começava britânicamente no horário, salvo nos domingos em que jogasse o São Paulo no Pacaembu. Nesses domingos o padre ia ao jogo, sem o padre não havia jogo e as partidas terminavam às 18:00hs. Portanto a missa só se iniciava às 19:00hs.

Monsenhor Bastos ia aos jogos com a mesma entrega espiritual que dedicava às suas homilias. Era fanático. O padre se sentava nas arquibancadas, uma vez identificado os adversários faziam troça.

Se o São Paulo perdesse gritavam que “era culpa do urubu”, se ganhasse queriam sua expulsão da igreja, levara Deus a interferir no resultado.

Francisco Bastos foi personagem de histórias verdadeiramente inesquecíveis. Uma vez ele estava sentado na arquibancada. Eram tempos românticos, as torcidas se misturavam, não havia divisão de torcidas.

Monsenhor Bastos podia ser visto naquela ocasião acomodado ao lado de três ou quatro diretores do clube, era um “Majestoso” e os corintianos ilhavam os raros são-paulinos presentes ao estádio. O Corinthians fez 1, fez 2 a 0. Todos olhavam para o padre e gritavam: urubu, urubu!

Veio o segundo tempo. O São Paulo faz o primeiro, faz o segundo, vira para 3×2 antologicamente. Monsenhor Bastos apenas fita os adversários e sorri. Então o cercam e passam a gritar que homem de saia não sabia vibrar.

Nesse momento, descendo ferozmente três degraus, um sujeito atarracado encara os atrevidos e parte-lhes a cara gerando uma confusão só contida a muito custo e horas depois pela polícia.

Depois do entrevero soube-se quem era o herói que defendera o religioso: era Kid Jofre, um lutador de boxe recém chegado ao país e pai de uma criança de nome Éder, que no futuro seria o nosso imortal “galinho de ouro”, campeão mundial de boxe.

Monsenhor Bastos era um são-paulino inigualável.

Para ele, torcer para o São Paulo era um ato semelhante ao ato de orar. Seu espírito se enlevava ao ver o clube das três cores em campo. Monsenhor Bastos era um devoto do São Paulo FC.

O grande Benedito Ruy Barbosa, esse gênio de nossa dramaturgia, conta que uma vez assistiu a um jogo ao lado de nosso personagem iluminado.

Conta Ruy que Monsenhor Bastos assistia à partida impassível sob a ótica dos demais, mas cochichando desesperado aos seus ouvidos.

O padre estava revoltado com uma derrota, o time jogava muito mal, um certo atleta estava parado, morto em campo.

Ruy, sangue quente, passou a xingar o time, pedia raça, aos brados, mas educadamente, afinal estava ao lado do padre… Então Monsenhor Bastos sussurrou em seus ouvidos:-“xingue o fulano, vamos, xingue, mas xingue com palavrões, você pode, eu não posso!

E Ruy desfiou um rosário de palavrões vociferando contra o atacante desinteressado, com a aprovação silenciosa de Monsenhor Bastos.

O padre, depois dos berros e dos impropérios, sorrateiramente disse-lhe, à boca bem pequena:- “é assim que se faz, meu filho”!

Monsenhor Francisco Bastos era fanático pelo tricolor.
O São Paulo não tinha onde treinar, no início não tínhamos campo, já o disse.

O São Paulo não tinha onde concentrar seus jogadores, às vésperas dos jogos era preciso localizar, na noite boêmia, os atletas que jogariam no dia seguinte. Não era fácil.

Numa certa reunião da diretoria, num porão da Praça Carlos Gomes, no centro da cidade, onde só havia três ou quatro cadeiras nas quais os diretores se revezavam para sentar, colocou-se em pauta o delicado assunto.

Era preciso que se destacasse alguém para localizar os craques nas noites anteriores aos jogos, alguém que os aconselhasse a irem dormir; jogar insone estava se tornando um hábito para os nossos meninos.

Monsenhor Bastos tomou a palavra e sugeriu algo que assombrou os presentes: a partir da semana seguinte levaria os atletas para se concentrarem na igreja. Sim, a igreja da Consolação iria transformar-se em concentração do São Paulo!

E assim foi feito.

Monsenhor Bastos então substituiu o pai de cada qual e de todos os jogadores do São Paulo. Decretou horário para o recolhimento, à certa hora todos deveriam se apresentar na igreja, ali ele os alojava, na torre, no terceiro andar.

O bairro da Consolação era o bairro da boêmia, até hoje o é. Como impedir os jogadores de sair para fruir os prazeres da juventude?

Monsenhor Bastos passava a tranca nos aposentos, divididos em tabique de madeira, pular do terceiro andar quem poderia?

No pátio da igreja, local reservado para os raros embates das inocentes partidas de basquete dos congregados marianos, os craques passaram a se exercitar, era lá que eles batiam bola, Monsenhor Bastos trouxera para aquele sítio sagrado da religião a sagrada chama de sua paixão mundana, o futebol.

Assim foi a vida desse homem de fé que se apaixonou perdidamente pelo clube da fé.

Nenhum jogador do São Paulo batizou um filho ou se casou durante o período em que Monsenhor Bastos fez parte da diretoria sem que ele próprio celebrasse o batismo ou o casamento.

Muitos craques viram seus filhos receberem na pia batismal uma recomendação para que se tornassem tricolores, quase todos os jogadores do São Paulo se casaram ouvindo as palavras doces do padre são-paulino.

Dino Sani, “Il Signore Sani”, um dos monstros sagrados de nossa façanha histórica, conta que foi Monsenhor Bastos quem celebrou seu casamento.

Era uma sexta-feira. O São Paulo só jogaria no domingo e contra um time pequeno pelo campeonato paulista.

Monsenhor Bastos, ao benzer as alianças dos noivos foi ao ouvido de Dino e decretou baixinho: – “só se consuma o casamento se o senhor se comprometer, em nome de Deus, a jogar domingo”! Dino respondeu:- “jogarei, em nome de Deus”!

E assim o casamento se consumou. E o São Paulo venceu o jogo, com um gol do recém-casado.

Muito há a falar sobre a trajetória desse incrível personagem, desconhecido por muitos, ignorado talvez pela maioria dos são-paulinos.

Não vou me alongar, meus iguais. Só um compêndio de vários tomos descreveria a dedicação desse homem pelas nossas cores.

Enquanto viveu, Monsenhor Bastos integrou a diretoria do São Paulo, tendo sido, inclusive, presidente do Conselho Deliberativo do clube.

Um dia um repórter abelhudo e torcedor assumido de um clube rival quis colocar publicamente o afável Monsenhor Bastos em situação delicada perante seus fiéis. Perguntou-lhe se ele amava mais o São Paulo do que a Deus.

Monsenhor Bastos, serenamente, respondeu-lhe que amava Deus e o São Paulo; para ele era Deus no céu e o São Paulo na terra.

Os anjos disseram amém.

Descanse em paz, Monsenhor Bastos.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.
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